terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CARRIE


Carrie foi o primeiro livro que li de Stephen King, e só depois descobri que também foi seu primeiro livro publicado. Segundo algumas histórias ele não havia gostado do resultado e foi sua mulher que salvou seu trabalho da lixeira e tomou medidas para que ele prosseguisse. O autor revelou que foi escrito em um momento ruim de sua vida, mas parece que funcionou, pois, o mundo da literatura de terror deve muito às suas obras. A publicação do livro data de 1974, e possui versões no cinema, conexões com outros livros de King, além de ter referências espalhadas em diversos tipos de mídias, desde séries e desenhos animados. Após ler alguns livros famosos do autor, confesso que Carrie continua sendo o meu preferido. Das versões cinematográficas, com certeza a primeira, dirigida por Brian de Palma em 1976 continua sendo a mais lembrada.

A estrutura do livro lembra um pouco do que Bram Stoker fez em Drácula, e não duvido que King tenha se inspirando no antigo livro do vampiro, onde os fatos ocorridos são contados por cartas, notícias de jornais e diários. Na história, logo no início você se depara com uma tragédia sem precedentes ocorrida inexplicavelmente na pequena cidade de Chamberlain, e sem muita explicação do que ocorreu e como, somos levados por notícias e entrevista dadas por diversos personagens que dão sua perspectiva do que ocorreu anteriormente sobre os envolvidos. Até estudos são esmiuçados tendo como título “O caso Carrie”. Lembro que na época em que li não havia assistido aos antigos filmes e sabia bem pouco sobre o enredo, o que me ajudou e me fez o colocar na lista dos livros que você não consegue parar de ler.


Ela é uma garota sozinha, sem amigos e tida como estranha por todos. Sua aparência descuidada e cheia de espinhas ajuda ainda mais a ter problemas sociais. A grande causadora desse problema é sua mãe, Margareth, que possui um relacionamento doentio com a filha e com o mundo. Extremamente fanática religiosa, pune sua filha por qualquer coisa que julgue ser contra os preceitos de Deus, condenando-a a uma vida de privações e castigos, não muito difícil a garota fica trancada por dias a fio num pequeno armário, sem comer e fazendo necessidades onde está. Suas roupas, aparência e experiências de vida seguem os princípios maternos, que resultam num acontecimento no colégio que Carrie considera como o pior dia de sua vida. Ao tomar banho com as garotas no vestiário após aula de Educação Física, ela entra em pânico ao ter sua primeira menstruação e virar motivo de chacota entre as demais garotas que lhe atacam absorventes e disparam insultos, que desencadeia um castigo para a mimada Chris Hargensen, proibida de ir ao baile de formatura. Outra garota se compadece de Carrie e pede para o namorado levá-la ao baile. Lá eventos trágicos ocorreriam.


 Esse livro é um grande exemplo de como Stephen King tem maestria em construir personagens que irão ficar na sua mente por anos. Desde o protagonista estranho com forças peculiares, passando pelos arquétipos de valentões e jovens cruéis, até chegar em religiosos ortodoxos que fazem seus familiares sofrerem. Carrie apresenta poderes telecinéticos de tempos em tempos, que afloram após os últimos eventos de sua vida, talvez com a menstruação. Esse poder está enraizado na genética de sua família, manifestada a cada duas gerações. A foto dos poderes é motivo de estudos, mas logicamente sua mãe a considera como cria de Satã. Mas dificilmente você a encarará como um demônio e, não obstante torcerá para seus desafetos levarem a pior. Outra marca do autor presente nessa obra é a crueldade humana, presente nos atos das alunas e em sua mãe. Até nas entrelinhas você nota o quão Margareth prejudica a filha, como exemplo o pânico da menina ao ver o sangue de sua menstruação, evidenciando que nunca teve conversas a respeito com a mãe, que a castiga por estar se tornando mulher.

O livro vai trabalhando o suspense, te dirigindo até o final numa ansiedade agoniante, num roteiro dinâmico e você compreende o motivo dele ter sido escolhido para inspirar o filme que pouco mudou de sua história. Relembrando o filme de 1976, fica difícil não ler o livro agora sem imaginar a Sissy Spacek como Carrie, ou Piper Laurie como Margareth, até John Travolta como o valentão Billy Nolan, namorado de Chris Hargensen (Nancy Allen, futura parceira do Robocop na década seguinte). Foi um bom elenco com um bom diretor e se tornou uma referência para o personagem, King até pontuou que a cena final desse filme é uma das cenas que mais o assistiu num filme, mas se puder leia o livro. Você irá se surpreender.

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