sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

SER NERD É SER CHATO?


“Os filmes de Zeck Snyder são muito escuros e lotados de cenas de câmera lenta”, “Os filmes da Marvel têm piadinhas forçadas a cada três minutos de filme”, “o Mad Max quase não abriu a boca em seu último filme”, “O despertar da força é uma cópia do Star Wars de 1977”. Realmente agradar os nerds não é tarefa fácil. Nunca foi, e hoje em dia o público que assiste filmes de super-heróis como um filme de ação qualquer, outros tantos querem se aprofundar no assunto, começam a ler os quadrinhos (os encadernados da Panini ajudam bastante os novos leitores), assistem novamente os desenhos animados, devoram séries e criam sua maneira de pensar, mesmo que seja manipulada por algum canal ou site especializado. Mas o que o nerd sente ao assistir à um filme de herói é como assistir a um amigo numa prova de atletismo ou num jogo. Você torce por ele.

Chovem canais no YouTube sobre quadrinhos e seus derivados. Os nerds invadiram todas as mídias, e a internet deu poderes para qualquer cidadão do planeta dar sua opinião, só necessita que tenha conexão e seja aberto para o mundo. Antes essas opiniões ficavam nas rodas de amigos ou conversas de escola. Hoje você pode entrar no Facebook, se direcionar para os milhares de grupos de filmes, HQs, séries, dar sua opinião favorável ou contrária à algum fato, e pronto.  O problema é que sua opinião de nerd veterano e amante da nona arte é confrontada com outras opiniões de pessoas que descobriram esse mundo apenas após assistirem ao filme, que nem gosta de HQs e em vários casos nem de cinema. Se por um lado tem aqueles que idolatram o Tony Stark de Downey Jr., há aqueles que o veem como um cara que já deu o que tinha que dar, já outros aplaudem Gal Gadot como a Mulher Maravilha e outros não enxergam onde a atriz parece uma amazona. Opinião é formada pela experiência e gosto de cada um, e não dá para filtrar quem é quem nesses grupos.


O Facebook virou uma guerra de torcida, os que gostam da Marvel e os que defendem a DC. Parece que há uma torcida para que um ou outro vá mal nas bilheterias, como se alguém ganhasse com isso. E as opiniões chovem, “O filme do Thor Ragnarok é uma babaquice”, ou “Liga da Justiça não é tão engraçado”. Temos que pensar que é natural os filmes não serem iguais, imagine só você não assistir Tarantino porquê não são iguais aos filmes do Scorsese. Ou esquecer Almodóvar, pois não tem nada a ver com os filmes Spielberg. Um filme de herói tem que ter a mesma forma só por ser filme baseado em quadrinhos? Alguns vão dizer que sim, pois é isso que o público geral espera, mas não é o que o público nerd quer. Os nerds que não eram nerds antes dos filmes, lerão os HQs e estranharão muita coisa. Já os veteranos nunca aceitaram bem o Wolverine de Hugh Jackman até seu último filme, que o transformou no melhor Logan que poderia existir.

Há o problema de a mídia ser diferente, o que funciona nos quadrinhos pode não funcionar nos filmes, e vice-versa. Os trabalhos de Alan Moore que os diga, muitos são infilmáveis da maneira como foram concebidos. Como investir milhões, verdadeiras fortunas, em um filme que não garanta renda? A maioria do público deve ser agraciada, e sabemos que a maioria não é nerd veterano, ok? Bilheteria não é sinônimo de qualidade, temos muitos clássicos que deram prejuízo e muita porcaria no top dez de arrecadação. E com isso vemos fórmulas sendo utilizadas de um filme para outro. Pôde ter funcionado no começo para a Marvel, mas nos filmes atuais percebemos que essa fórmula mudou de Homem de Ferro para os Guardiões da Galáxia. Aí vem o grande problema da DC.


Para quem gosta do Homem Aranha já deu para perceber o tipo de filme devemos esperar do escalador de paredes, com três atores o interpretando nos últimos 17 anos, houve diferenças, mas o estilo aranha estava lá. Utilizar a forma do Homem de Ferro para os demais Vingadores também era algo aceitável, e repagina-los aos moldes dos Guardiões é compreensível. Mas como fazer isso na DC? Christopher Nolan respeitou o estilo do Batman, Zack Snyder apresentou um novo estilo ao Superman, mas ao juntar os dois houve um choque desses estilos, que foi ainda mais forte no filme da Liga. O mundo de Batman é único, sombrio e amedrontador, bem diferente do kriptoniano. Um bom exemplo são os desenhos de Bruce Timm, onde todos têm o queixo quadrado e estilo de animação reconhecível pelos traços, mas ao assistir o desenho do Batman e Superman você nota a diferença. As luzes, os movimentos, as cores, a história, tudo segue sua maneira diferenciada de ser, e com a união dos heróis no desenho da Liga vemos uma união perfeita, na criação de um estilo próprio da Liga. Não era o desenho do Superman, nem do Batman: era a Liga da Justiça. O universo de cada herói da DC não é moldável para abraçar outro herói da editora, eles possuem vida própria e são tão importantes quanto os heróis que os habitam.

O filme da Liga seguiu a formatação dos filmes anteriores do Superman, com direção do mesmo diretor e teve problemas na produção. É mais difícil fazer um filme com tantos estilos diferentes, era necessário um estilo próprio, como nos desenhos. Mas ainda assim a LJA é um bom filme. A identidade dos novos filmes da DC ainda pode surpreender, como o ótimo filme da Mulher Maravilha (que tem sua própria personalidade). Dessa forma a DC iria agradar à maioria, como o seu desenho o fez. Agradando ao nerd, o que é bem difícil, poderá agradar multidões que trarão bilheteria. As opiniões descabidas são apenas opiniões, que devem ser respeitadas, mas também analisadas para conferir se tem fundamento ou não. Mas se é para fazer um trabalho ruim para agradar a multidão e receber lucro, cuidado: as continuações sofrerão com as más escolhas. E é muito bom ter opinião, mesmo que não siga a maioria. Eu mesmo quase apanho ao dizer que gostei mais de Rogue One do que O império contra-ataca (sem xingamentos por favor).