segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

EXTRAORDINÁRIO


Há muito a se dizer sobre o filme Extraordinário. A trama pontua bem todos os aspectos do tema em duas horas, que passam correndo, e você não percebe o quanto já foi absorvido da história de August Pullman - Auggie, um garoto que nasceu com deformidade facial e após vinte e três cirurgias, que lhe ajudaram a enxergar, ouvir e respirar melhor, mas ainda não lhe deram uma vida normal. Baseado no livro de mesmo nome, escrito por R. J. Palacio – um best seller, o filme acerta na dose de emoção te levando do riso às lágrimas, e dependendo do seu grau de sentimentalismo, aos dois ao mesmo tempo. Se por algum acaso você passa por algo parecido na família ou amigos, ou até consigo mesmo, você terá ainda mais motivos para se emocionar com o filme.

Devido à sua condição e cuidados iniciais, Auggie estudou até a quarta série em casa, com sua mãe (Júlia Roberts), mas ao chegar ao quinto ano ele precisará passar pela maior provação de sua vida: estudar com outras crianças no colégio. Lá ele terá que enfrentar olhares desconcertados, crueldade infantil e a dificuldade de fazer amigos. Mas também vemos a situação pelo olhar de pessoas próximas a ele, como a irmã, a amiga da família e até um dos novos colegas da escola e não muito difícil nos colocaremos no lugar de cada um deles, relembrando acertos e falhas em nossas vidas.


É bonito ver como uma família consegue passar pelas dificuldades na criação e acompanhamento de uma pessoa especial, que englobe maiores cuidados, dedicação, sacrifícios, escolhas, compreensão e força, e ainda serem muito felizes juntos, como devem ser. A maneira como o mundo os veem é que gera o maior transtorno. Enquanto os adultos tentam agir de maneira natural, as crianças até tentam o mesmo, no primeiro momento, mas não mantém a máscara que os adultos seguram até o fim, e a necessidade de serem aceitos pelos demais jovens é mais forte do que ser gentil ou amigo do novo garoto com rosto diferente. O bullyng passa a fazer parte da vida de Auggie, mas os agressores não são caricatos: em partes do filme você não concorda com suas maneiras de agir, mas compreende porquê são assim. E também notamos como surgem amizades, que não são perfeitas, mas que merecem existir. 

Cada pessoa que passa pela nossa vida deixa marcas, e a vida de Auggie começa a ser marcada fora do lar. No começo ele usa um capacete para esconder o rosto, mas são muitas das pessoas que o rodeiam nessa nova vida que necessitam esconder como olham o mundo. Ele teve sorte de nascer numa família maravilhosa, com um pai engraçado (Owen Wilson – com um papel parecido com o do filme Marley e eu), que tenta a todo o momento dar um ar de normalidade à família, pois é o que são, você percebe isso na maneira em que interagem e até nos gostos do garoto, facilmente encontrado nos outros meninos (ou com qualquer um, pois Star Wars é adotado por pessoas de qualquer idade). Já a mãe, tão bem interpretada pela Julia Roberts, faz o que toda mãe faria na situação se pudessem: largaria tudo e viveria em prol do filho. A irmã, que sempre age de maneira compreensível, esconde o problema de sempre ser deixada de lado por causa das necessidades do irmão mais novo. Mas em tudo, Auggie é que tem as maiores tarefas e transformações.


Cada dia na escola é um suplício, o fato de alguém estar ao seu lado pode significar que essa pessoa não será mais aceita em outro grupinho de amigos. Ser aceito é o que todos querem e com nosso protagonista não seria diferente. As atitudes das crianças servem para ilustrar o que fazemos para sermos notados individualmente pelos demais, e quando se é diferente, sua aparência molda a maneira como você é visto, como se cada olhar tivesse uma máquina de raio-x que o enxergasse por dentro, como se ficasse evidente quais são suas qualidades e seus defeitos, e sendo impossível imaginar que a pessoa possa ter algo surpreendente a apresentar.  Essas reações dos personagens e do próprio Auggie são bem trabalhados no filme, que possuí a mensagem de como uma criança com os mesmos problemas pode passar por essa situação.

O elenco do filme está muito bom, com destaque para Roberts e Jacob Tremblay, que mesmo com bastante maquiagem, consegue exprimir nos movimentos e no olhar o comovente mundo interno de seu personagem. Mesmo com o capacete de astronauta você nota seus sentimentos, indo de encontro ao desconhecido. Alguns momentos do filme possuem aquela carga emocional com música tema te induzindo ao choro, e podendo ser considerado um clichê, mas os criadores não estavam nem aí, crítico chato é o que não falta e dar ouvido a eles é desserviço.  



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