segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FAHRENHEIT 451


Fahrenheit 451 é o livro mais famoso e importante do escritor americano Ray Bradbury. Cheio de simbolismos e críticas sociais, tem várias mensagens explícitas e implícitas em seu escopo, que o transformou numa das mais importantes obras literárias do século XX. Também é considerada uma das melhores histórias de ficção científica, que o autor nunca concordou em encara-la como tal. Lançada em 1953, trouxe consigo diversas mensagens que só ganharam mais destaque nos dias de hoje. Ao ler o livro você pode achar, no primeiro momento, que o tema mais importante seja a censura, que realmente é bem forte na trama, mas no decorrer da leitura percebe que a alienação cultural e social é que fazem do livro uma obra sempre atual.

Num futuro distópico com data não revelada, os livros foram banidos da sociedade. Portar, ler, guardar, escrever, editar, copiar, tudo em relação aos livros era proibido. Com isso toda opinião dissidente do comum ou pensamentos críticos são considerados antissociais e combatido pelas autoridades. O protagonista Guy Montag trabalha como bombeiro, como seu pai e também seu avô. Mas os bombeiros no futuro não apagam incêndios ou fazem salvamentos. Suas novas missões são destruir livros escondidos e tudo o que estiver à sua volta, para impedir que sejam lidos ou causem danos a sociedade. No lugar de mangueira e água, suas ferramentas são lança chamas e combustível, e o nome do livro vem da temperatura em que o papel é queimado (Fahrenheit 451 = 233°C). E Montag vive em seu casulo, feliz, já sabendo de seu futuro. Casado com Mildred, que vive na mesma noção de vida conformista, acostumada com seu televisor que mostra vidas comuns e desinteressantes como a dela, ter uma vida social e ser bem vista pelos vizinhos é seu plano de vida compartilhado com o marido.


Mas essa zona de conforto de Montag é abalada quando ele conhece sua nova vizinha Clarisse, que possui uma maneira de pensar bem diferente. Livre, questionadora, intelectual, ela consegue plantar uma semente nos pensamentos de Montag que só vai crescendo e formando frutos. Ele começa a analisar sua vida, seu trabalho, sua relação com a esposa, seu futuro. Começa a perceber que nunca fora feliz e seu conformismo vai para o ralo. Em seu trabalho, revistando casas a serem incendiadas por causa de livros encontrados, ele começa a se sentir estimulado de maneira incontrolável a ler e algumas frases dos livros em chamas são lidas e fixadas em sua mente. Montag não era a mesma pessoa. Daí por diante seu caminho seria cheio de atos e consequências impensáveis em sua antiga vida de conformismo. Enquanto a transformação do personagem principal é o que faz o livro andar, os demais personagens são um retrato dos vários tipos de pensamentos e atitudes que ocorrem em relação a esse tema. Em certo ponto Mildred é confrontada com esse novo tipo de pensamento pelo marido e ela prefere tenta negar o que está sentindo de forma drástica, preferindo não pensar, não sentir e ao mesmo tempo não conseguindo viver bem com novas ideias em seu casulo. Já a vizinha Clarisse é a manifestação de nossas ideias, do pensamento livre, que pode ser diferente e até errado, mas é próprio.


Mas além do protagonista, que tem sua maneira de pensar alterada durante todo o processo, o personagem que mais chama atenção é o seu chefe do seu posto de bombeiros, o Capitão Beatty. Sua principal característica é demonstrar ser um grande conhecedor das obras literárias, recitando trechos de livros famosos e entendido de vários assuntos e ao mesmo tempo sendo um inabalável combatente na frente contra os livros. Você nota que Beatty percebe uma mudança no comportamento de Montag, mesmo não revelado, e ele dá vários conselhos indiretos ao seu subordinado, para tirá-lo desse caminho. Sua maneira de pensar talvez seja a mais perigosa, sendo daqueles que leem e tentam tirar mensagens erradas de suas leituras, ou buscam o que elas têm de pior, ou até recebem a mensagem lida, mas deturpam à sua maneira. Sua forma de pensar pode até parecer certa, da maneira como sua ideia é exposta, mas mesmo assim é menos importante do que a liberdade do pensamento individual. 

Para ajudar os bombeiros em suas funções, temos os cães cibernéticos, os sabujos que farejam livros a distância e são implacáveis, com diversos dispositivos que auxiliam nessas buscas. Essas máquinas contribuem para o livro ser encarado como uma obra de ficção científica, mas o autor não era adepto dessa ideia. Sua visão era mais uma forma de ver a sociedade perante ao novo invento que se espalhava pelos lares americanos na década de cinquenta: os televisores. Com a TV pessoas pararam de ler, e hoje, com a internet temos um novo adversário à boa leitura, que se destrói também com a forma de escrever descompromissada com abreviaturas constantes. O tema da censura hoje em dia se confunde com a alienação, onde ideias mal pensadas são despejadas e confundidas com maneiras de pensar. Em uma determinada parte do livro, Bradbury profetiza: a censura foi iniciada pelas minorias, acuadas por terem suas maneiras de pensar não compartilhadas por todos, e necessitadas de serem reconhecidas, atacam pedras em forma de palavras, rasgando primeiro uma página controversa, depois livros com ideias dissidentes. Hoje vemos grupos parecidos. Ao fim percebemos que temos Beatty e Mildred dentro de nós mesmos, mas nunca é tarde para descobrirmos nosso Montag e seguir em frente. Dois filmes já foram pensados para a história, um concluído e lançado em, e o segundo em produção desde metade dos anos noventa, cancelado várias vezes. Um livro que nenhum nerd pode perder.