terça-feira, 3 de outubro de 2017

O REINO DO AMANHÃ


A história dos Comics Books é dividida em eras, sendo as eras de ouro e prata as mais saudosas pelos fãs. Outra época famosa, mas por motivos diferentes, é a Era do Cromo, que recebeu esse nome devido às capas de algumas HQs publicada por volta do início dos anos noventa, onde os desenhos de heróis musculosos e feições exageradas de ação eram recheados com imagens metalizadas com o intuito de atrair o público. As editoras estavam tendo o melhor resultado de vendas de toda a suas existências, devido aos ótimos trabalhos apresentados no fim da década anterior e da arte de alguns desenhistas que despontavam nesse cenário, como Jin Lee e Rob Liefeld. As tramas eram ruins e caça níquel, com a morte de um herói de um lado e a união de outros heróis de outro. O estilo anti-herói assassino e mulheres com pernas enormes e cinturas finíssimas eram o novo estilo que foi copiado à exaustão. O resultado foi uma catástrofe total, com baixas vendas e a Marvel quase indo à falência. Mas isso chegou ao fim, e a HQ que marca esse retorno à qualidade é a famosa “O reino do amanhã”.

Demorou um pouco para a situação se normalizar, mas as editoras perceberam que a crise na indústria de HQs foi culpa de seus exageros e quando nem eles consideram o que fazem uma arte, o público não vai achar. E Alex Ross sabia disso. Juntamente com Mark Waid eles contaram uma história que traria os heróis da era de prata para se digladiarem com os heróis da Era de Cromo. As maiores editoras de quadrinhos do planeta tiveram que se render. O que faz delas grandes empresas é o sentimento dos leitores com os personagens que há tantos anos fazem parte de suas vidas, com pequenas modificações, mas com o contexto inabalável. E para essa empreitada nada mais certo chamar a trindade da DC para cumprir com o objetivo. Superman, Batman e Mulher Maravilha lideram os heróis do passado num mundo cheio e carente de heróis ao mesmo tempo.


Anos antes Alex Ross apresentou sua arte ao mundo com a minissérie Marvels, veja aqui, com seu estilo realista que fez os desenhos feitos por outros desenhistas parecerem rabiscos de criança, e o pior, era apenas um realce no que já existia nas décadas anteriores, copiando capa por capa pelo artista. Se ele já demonstrou à que veio e a mensagem que queria passar na Marvel, na DC ele apenas desferiu o golpe final. A história se passa no futuro onde os heróis do passado já não atuam mais. Superman está num exílio auto imposto após a morte de sua amada Lois Laine pelas mãos do Coringa e Bruce Wayne ainda age em Gotham, mas sem capuz, após ser incapacitado numa luta. Mas o mundo estava cheio de heróis, na maioria jovens inconsequentes, que mais causam danos do que ajudam. Com uniformes brilhantes e poderes espalhafatosos, eles fazem a vez dos personagens criados na década de noventa. Um deles é o poderoso Magog, o ser mais poderoso desse mundo, que lembra bem Cable, personagem criado por Rob Liefeld para as histórias dos X-MEN.

Como deuses, os antigos heróis retornam para impedir a nova Liga da Injustiça, ou Legião do Mal, que estão com novos planos de dominação mundial e aproveitam o embate entre os heróis para colocar o novo plano em prática. Vemos antigos heróis dando as caras e analisamos o fim que cada um levou nesse futuro funesto. Enquanto em Marvels compartilhamos a memória e imagens tiradas por um fotografo que acompanhou os fatos mais importantes da Marvel, em O Reino do amanhã acompanhamos um pastor idoso chamado pela entidade Espectro para servir de testemunha aos acontecimentos narrados. O pastor nada mais é que o leitor fã de quadrinhos, que não importa o quão mal as histórias sejam lançadas, ele sempre voltará aos seus personagens favoritos. As capas, com vários personagens lado a lado olhando para você se tornaram icônicas, como se eles nos observassem, assistindo nossas vidas.


O que me chama atenção na história é a importância que o Shazam (ou Capitão Marvel) tem na história. Numa trama onde podemos visualizar o crepúsculo dos deuses, Shazam não tem um lado definido, uma vez que é controlado pelos vilões e ao mesmo tempo é uma esperança para o clímax, onde Superman concorda que nunca foi um homem nem tão pouco um Deus, mas Shazam era os dois. Curiosamente o Capitão Marvel foi um dos personagens comprados pela DC anos após uma batalha judicial de plágio do Superman. Lá está ele de volta, o jovem Billy Batson que foi agraciado com poderes que o transformando num dos seres mais poderosos da Terra ao gritar Shazam. Alex Ross fez história, Mark Waid escreveu os diálogos e nós ganhamos quatro edições que englobam uma obra de arte. Mas histórias recentes, com mais mortes e colocando herói contra herói demonstram que um novo reino do amanhã deve retornar.