quarta-feira, 25 de outubro de 2017

1922


Se Stephen King não for o escritor que mais obras foram transpostas à outras mídias como cinemas e séries, com certeza é o mais lembrado. Quase tudo o que escreveu saiu de suas páginas para a tela plana. Por ser um escritor tipificado, quando alguns de seus trabalhos viram filmes e não são ligados ao terror, esperamos que algo aterrador aconteça. Em A espera de um Milagre e Um sonho de liberdade não há terror, e foram grandes sucessos baseados em seus contos, e vendidos como não terror. O problema do novo filme produzido pelo Netflix em cima de um outro conto do autor é ser vendido como filme de terror, que ele não é. Tem algumas cenas impactantes, algumas aparições, mas o foco do filme é um crime e suas consequências, com toda a história sendo mostrada, e narrada, pela ótica do criminoso.

Esse é o maior trunfo do filme, com uma história simples demais, mas com os sentimentos e maquinações sendo transmitidos por um assassino, com seus motivos e maneira de pensar peculiar, fazem desse filme uma boa pedida para um sábado à noite. Wilfred James (numa interpretação inspirada do ator Thomas James) acredita que um homem deve ter sua terra, onde possa criar o filho é tirar o fruto de seu trabalho. Mas sua mulher pensa diferente, e por ser dela a maior parte das terras em que vivem, uma herança de seu pai, ela decide vender sua parte e ir morar na cidade com o único filho que possuem, o marido gostando ou não. Como os mais velhos diziam, cabeça parada é oficina do diabo, e Wilfred vai somatizando sentimentos ruins contra sua esposa, aliando-se a sua visão de vida, e arquiteta um plano de assassinar sua mulher. Para tanto, começa a jogar seu filho contra ela até que ele aceite ajudá-lo seu plano. Mas após matá-la as coisas não acontecem conforme ele esperava, tudo isso acontecendo no ano de 1922.


Está claro na história do filme que o foco é a diferença nos sentimentos do pai de família, na primeira parte tendo sua ganância e cobiça como guia para suas ações, sendo seguido de arrependimento, frustração, e até medo, por causa das consequências de seus atos. Como acompanhamos seus pensamentos, percebemos a todo momento uma busca incessante por razões para que ele coloque em prática seus planos, ou para se sentir melhor e seguir sua vida após a morte da esposa. Sentimos uma gama de emoções ao analisar a mente dele, um simplório homem do campo, com pensamentos antiquados, mas que consegue transmitir suas razões e sentimentos de uma maneira que te faz concordar em certos pontos, para depois te jogar no chão ao perceber que estava tão errado quanto ele. Talvez por termos que buscar razões parecidas para cometer delito menores em nossas próprias vidas.


Essas razões são necessárias para a mente humana viver bem com seus erros, nas no fundo sabemos que não passa de uma desculpa, e você se afoga nos seus erros do passado. Isso pode vir em forma de visões, tormentos, pesadelos, arrependimentos e quem sabe loucuras. Em nenhum momento no filme é revelado se a esposa morta é uma aparição ou a encarnação da culpa de Wilfred, e os ratos que inundam as cenas podem muito bem ser o remorso corroendo sua alma. Numa conversa com o filho há uma dúvida se eles iriam para o inferno, e logo o pai responde que ali era o paraíso, mas a natureza responde na melhor concepção da lei de ação e reação, que o inferno não fica muito longe. Resta saber se foi uma forma de punição divina ou apenas atos da natureza, humana ou não. Mas é fato que nenhum crime fica sem punição a partir da ideia que nossa consciência é nosso maior juiz e muitas vezes o carrasco.


A ótima performance do ator em sua narração, com ótimo texto, e a fotografia do filme é a direção de arte estão de parabéns, ainda mais por ser um filme não direcionado ao cinema. Mas isso não é novidade, pois tivemos o ótimo Beasts of no Nation do próprio Netflix anteriormente. No diálogo final temos um ótimo exemplar da mensagem que o filme tenta passar: algo em torno de “criminosos não deveriam acreditar em Deus, pois se Ele existir, o inferno também existiria.