quarta-feira, 20 de setembro de 2017

NOSSOS DEUSES SÃO SUPER-HERÓIS


O livro escrito por Christopher KnowlesNossos deuses são super-heróis” possui uma ótima análise do culto aos super-humanos dos quadrinhos que tomaram o lugar dos antigos deuses de antigamente. Knowles tem bastante experiência no assunto, trabalhou nessa indústria por décadas e já colaborou para vários trabalhos que receberam Eisner, o grande prêmio dos quadrinhos. Mas nesse livro ele trata de um assunto muito interessante, dissecando alguns personagens e ligando a história dos quadrinhos com o desenvolvimento social de maneira linear para que possamos acompanhar sua ideia. Não é segredo que os autores e criadores desses personagens tão queridos tenham bebido na fonte de lendas antigas para dar vida às suas criações, sejam lendas nórdicas ou gregas, sociedades secretas, mitos e religiões e até esoterismo. E o autor nos agracia com vários exemplos, de maneira bem escrita e nem um pouco enfadonha, com ilustrações bem estilizadas de Joseph Michael Linsner.

Os seres humanos sempre precisaram de deuses para que pudessem se agarrar no momento de necessidade, e tudo por causa do medo. Na primeira parte do livro ele trabalha bem essa necessidade, onde relata como as histórias em quadrinhos sempre tentava ajudar os leitores a enfrentar perigos reais em suas vidas. A Grande Depressão Americana e a Segunda Guerra Mundial são os dois grandes eventos que deram vida ao super-herói moderno e podemos perceber isso ao lembrarmos os vilões que os heróis enfrentavam na época: gangsteres, tiranos fascistas, políticos corruptos, gerando assim uma válvula de escape para os leitores fugirem da realidade. Superman, Capitão America, Batman, Mulher Maravilha foram criados nessa época. Podemos perceber que a Era de Ouro dos quadrinhos teve fim quando esses dois infames eventos foram superados pelos americanos, e as vendas de gibis de heróis diminuíram, mas quando o medo de um embate nuclear entre as grandes potências se tornou forte durante a Guerra Fria, lá estava a Era de Prata despontando, com dezenas de heróis surgindo na década se 60, como a maioria dos Vingadores, Homem Aranha, X-Men e etc.com inimigos tecnológicos, heróis espaciais, alguns representante a vitória dos americanos da corrida armamentista (Homem de Ferro) ou criados pelos efeitos nucleares (Hulk), até retornando velhos deuses (Thor) para que a realidade seja novamente esquecida.


O tempo passa, os americanos percebem (ou boa parte deles) que são os verdadeiros vilões da Guerra do Vietnã e diversos eventos (veja aqui) fazem com que  a indústria de quadrinhos caia. Mas novamente estariam de volta quando o medo voltasse. Ocorreu na metade da década de 80, com grande ajuda de Pablo Escobar e as drogas rolando soltas entre os jovens. Com o presidente Reagan mais preocupado com seu rancho e comunistas, que surge Batman: O cavaleiro das trevas e Watchman. Pronto, era uma das melhores épocas dos quadrinhos. A década de 90 sofreu uma das piores crises na venda dos quadrinhos por culpa das próprias editoras, na chamada Era do cromo, e os americanos estavam mais preocupados com Bill Clinton assediando estagiárias do que problemas sociais. Mas o medo sempre volta, e dessa vez veio de forma bem pesada, necessitando que as HQs dessem um passo bem longo para ajudar os heróis a se tornarem deuses. o filme do Homem Aranha em 2002 desencadeou uma onda de filmes de super heróis que perdura até hoje, mas foi o 11 de Setembro que deu aos americanos o medo necessário para que esses filmes sejam lançados até agora, uma vez que os atentados ocorrem até a data de hoje e em vários localidades do planeta. E essa indústria se tornou cinematográfica com lucros nunca antes obtidos pelas editoras.


Knowles vai percorrendo a história dos quadrinhos e nos detalhando tudo o que foi exposto acima, desde o antigo Egito, passando por Grécia, Roma e nos relembra as grandes Seitas Secretas que se tornaram tão conhecidas. Tudo ajudou a dar vida à imaginação dos criadores dos super-heróis. Alguns homens que são conhecidos como super-humanos também são comentados, como o satânico Aleister Crowley e o mágico escapista Houdini. Na parte três ele nos dá uma aula de algo que para mim é superinteressante e fonte inesgotável de pesquisas: Pulp Fiction, que não existiria se escritores como Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Julio Verne, H. G. Wells e Bram Stoker, e também não sobreviveria se outros grandes autores não tivessem abraçado a ideia e alimentado essas histórias de ficção barata e tão cultuadas que seriam os pais das Historias em Quadrinhos, como Lovecraft e E. Howard, onde lendárias revistas como Weird Tales fariam história.

Para salvar a humanidade era necessário utilizar muitas fontes, e uma árvore possuíam galhos alimentados por diversas raízes, que iam dos grandes magos das histórias medievais, messias bíblicos (Superman sem dúvida), heróis de guerra, feminismo, mitologia, lendas judáicas, e até sentimentos como a força de vontade (Lanterna Verde) e preconceito (X-Men) e vingança (Batman e mais um exército de personagens). Ao final ele presta uma homenagem a grandes visionários dos quadrinhos, como Alan Moore, Neil Gaiman, Mignola, Alex Ross, e logicamente o grande rei Jack Kirby. Um livro para quem gosta da nona arte.




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