quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ARDIL 22


O livro Ardil 22 (Catch-22) escrito por Joseph Heller é um achado. Foi por acaso que ele chegou às minhas mãos, num amontoado de livros que estavam sendo doados por não sei quem há muito tempo atrás. A capa mostrava um desenho de um pára-quedista em queda livre se dando conta que a corda de seu pára-quedas estava quebrada. O ótimo bom humor da história me fez lembrar as tiras do Recruta Zero e do filme e série M.A.S.H. de 1970, e só depois descobri que esse livro lançado em 1961 foi inspiração para esse filme. Trata-se de uma sátira às guerras e à burocracia (burrocracia melhor dizendo), e na época de sua publicação dividiu opiniões: muitos ficaram chocados com a maneira em que o tema foi tratado, com humor negro e até ofensivo. Já os estudantes abraçaram a obra, percebendo a genialidade por trás da história, que caiu como uma luva em suas lutas contra a Guerra do Vietnã mesmo a história se passando na Segunda Guerra Mundial, o tom de protesto contido no livro é atemporal.

Joseph Heller revelou que demorou quase dez anos para terminar de escrever esse livro, que marcou sua vida e se tornou uma dos maiores romances de protesto da literatura americana. O protagonista é Yossarian, um aviador da Força Aérea Americana que está situado numa ilha italiana durante a Segunda Guerra, e que está se sentindo perseguido, chegando a achar que alguém está tentando matá-lo (ué, ele está numa guerra). A todo o momento ele cria uma maneira de fugir das missões, seja inventando uma doença ou outros esquemas mirabolantes. Seu maior problema é o número de missões necessárias para serem mandados de volta para casa, pois o número sempre é aumentado para que ninguém retorne. O livro é recheado com várias tramas paralelas dos demais soldados e oficiais, tendo vários capítulos direcionados a cada um deles. E o surrealismo dessas histórias são muito engraçadas e inusitadas, nos dando a sensação de improbabilidade misturada com certezas. Com certeza no Brasil seria mais crível ocorrer fatos desse tipo.


Yossarian e um ótimo personagem, bem trabalhado e carismático, mas os demais personagens também o são. Os absurdos do esquema da burocracia imposta ao esquadrão são demonstradas em cada história, uma mais humorada que a outra. As mais engraçadas são do comandante do esquadrão, Major Major Major Major (seu pai achou o nome interessante e o registrou escondido da mulher), que foi promovido ao posto de major no primeiro dia de carreira devido a um erro no computador da IBM e sempre que alguém ia até sua sala ele fugia pela janela. Já o médico Daneeka teve a morte erroneamente registrada nos documentos e fica impossibilitado de comprovar que está vivo, ainda mais quando sua mulher não acredita em suas palavras e ainda recebe a aposentadoria do marido. Já o oficial Minderbinder tenta transformar a guerra em lucro, na verdade tudo vira lucro em suas mãos, e ele até negocia com os nazistas um bombardeio ao seu próprio esquadrão. Hilário é conhecer o soldado branco, que está na enfermaria engessado dos pés a cabeça e ninguém sabe sua identidade.

Yossarian não é o único a tentar fugir das missões, e o trâmite burocrático possui até o artigo 22, o ardil do título, que autoriza o oficial ser enviado para casa se sua insanidade for comprovada, mas se o oficial é capaz de solicitar sua análise mental para tanto, então ele está são e apto para voar. Lógico que ninguém consegue escapar e se você é louco irá voar, pois não pediu para ser analisado. Na língua inglesa esse termo (Catch-22) foi incorporado às expressões utilizadas no dia a dia para se referir às situações paradoxais, onde a opção de fazer algo está condicionada a algo que a impossibilita.


Mas no decorrer do livro você percebe que o que era engraçado máscaras algo muito sério e longe de ser engraçado. Uma guerra é uma guerra, ainda mais uma tão sem precedentes como a Segunda Grande Guerra. A loucura e caos da guerra e inserida no livro de uma forma muito interessante. Os acontecimentos não são lineares e sem nenhum aviso o autor conta passagens do passado e presente, gerando confusão no leitor e lhe dando a sensação de estar  desorientado como um soldado na batalha. Heller sabia o que estava fazendo, pois participou de bombardeios durante a guerra, no norte da África do Sul e Itália. Talvez muitos dos personagens caricatos tenham cruzado seu caminho e certamente os sentimentos de Yossarian foram compartilhados por ele durante suas missões. Um dos livros da contracultura tão interessante quanto On The Road. Em 1970 também foi lançado um filme com Alan Arkin como Yossarian e grande elenco. Leitura imprescindível.