quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ONDE ESTÁ SEGUNDA?


O Netflix está aos poucos encontrando o seu caminho e lançando bons filmes em seu serviço, se não de cunhagem própria, mas produções que dispensaram as salas de cinema e estrearam diretamente no streaming. Sinto aquela falta de propaganda e na maioria das vezes, salvo algumas exceções, fico sabendo de uma produção apenas quando o lançamento ocorre. As séries são o carro chefe, mas alguns filmes valem a pena conferir. Essas produções estão em evolução, dá para perceber que estão melhorando e se não apresentaram algo que a crítica enalteça, estão no caminho, se bem que Beasts of no Nation para mim não fica devendo em nada para superproduções. E muitas são as estrelas de Hollywood que estão aparecendo nesses trabalhos. Um desses filmes que merecem ser visto é Onde está Segunda?, que tem Willem Dafoe e Glen Close no elenco e é protagonizado pela ótima Noomi Rapense.

O filme já vale a pena ser visto por ser estrelado pela atriz sueca, que sempre nos mostra uma interpretação forte e corajosa, com personagens que sofrem com as adversidades em que estão situados, sejam psicologicamente, fisicamente e moralmente. Para quem assistiu a trilogia sueca Millenium fica difícil não ser fã dessa atriz. Mas em Onde está Segunda? ela tem a oportunidade de demonstrar muito bem sua interpretação, quando consegue desenvolver sete personagens diferentes em um mundo distópico, onde a superpopulação transformou cada metro quadrado da Terra em uma Vinte e Cinco de Março em dia de sábado, com dificuldades de conseguir alimentação e escasseando nossos recursos naturais.


A proposta do filme é interessante, uma vez que a maneira como os governantes encontram para tentar minimizar ou acabar com o problema é parecida com o que ocorre em países e como a China, mas de maneira mais radical.  Enquanto os chineses pagam mais impostos por terem mais filhos e, por conseguinte, muitos bebês não são registrados para fugir desse imposto, o problema mundial mostrado no filme exige um regime totalitarista e opressor para ser colocado em prática. Uma pessoa só pode ter um filho, se algum "irmão" fosse descoberto ele seria "confiscado" e mantido em estado criogênico até que as coisas melhorem. A população era rigorosamente inspecionada, andando com pulseiras que indicavam se eram filhos únicos, e a palavra “irmão” se torna algo estranho e perigoso. Muitos não concordam com o governo, como o avô de sete gêmeas que decidiu cria-las escondidas. Cada qual chamada por um dia da semana, podiam sair no seu determinado dia, compartilhando a mesma identidade, todo santo dia. Eis que ficamos apreensivos quando ligamos essa história ao título do filme. Se uma delas sumir, o que as outras poderão fazer?


A trama nos dá o que pensar. O que o ser humano é capaz de fazer pela sua sobrevivência, até onde ele aguenta, o que ele suporta. Aprendemos que não são os mais fortes que sobrevivem, mas sim os mais adaptáveis. O ser humano tem essa qualidade, como o homem que ficou preso em uma gaiola por mais de uma década, numa posição que não podia ficar em pé e nem sentar. Ver como o avô (Dafoe) driblar as autoridades, treinando as netas para que sejam vistas como a mesma pessoa é brilhante. Em uma das cenas ficamos penalizados com a necessidade de se seguir esse plano, onde o destino de uma é compartilhado por todas. Um dos assuntos que são bem abordados no filme é a necessidade do ser humano em possuir sua individualidade. Cada uma tem uma tinha o sonho barrado por terem a mesma identidade, e de personalidades completamente distintas, um dia da semana não era mais suficiente para viverem como um mesmo indivíduo e é nessas personalidades diferentes que Rapense brilha.

Apesar de mostrar que o objetivo do governo é salvaguardar o futuro e proteger nossos recursos naturais, ficamos com aquele sentimento de ditadura, onde nossa vida é controlada por um agente externo que age de maneira autoritária ao invés de procurar maneiras de resolver o problema de outra forma. O filme aborda esse tema de maneira extrema, mas sofremos isso no Brasil, politicamente, impactando em nossa economia e convívio social. Certa parte da trama lembra muito o filme Minority Report, onde o instinto de sobrevivência fala mais alto e a perseguição toma conta da história. No fim do filme alguns fatos não soam surpreendentes, mas você percebe que assistiu a algo que valeu a pena seu tempo. Recomendo.