sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O CASO DE CHARLES DEXTER WARD


Lovecraft é reconhecidamente um dos maiores escritores de terror da história, se não o maior (na minha opinião). Sua obra conta com dezenas de contos, alguns já abordados aqui, como Nasmontanhas da loucura e o famoso O chamado de Cthulo, mas em sua maioria são contos rápidos ou com poucos capítulos. Isso ocorre porquê o autor lançava essas histórias em revistas pulps de ficção / fantasia como a lendária Weird Tales, que tinha contos de outros autores, mas que seguiam a mesma linha. Por essa razão as editoras atuais fazem um apanhado de contos para lançar um livro, como exemplo: colocam como título o conto principal e outras histórias. Mas dessa imaginativa obra há um único romance, também não muito longo, mas com páginas suficientes para ser lançado sozinho num único volume: O caso de Charles Dexter Ward. Um ótimo livro, com o único grande defeito de nos fazer querer mais obras desse porte, feitas pelo mestre do terror. Mas infelizmente temos que nos contentar com um só, escrito em 1927 e publicado, postumamente, em 1947.

H. P. nos conta a história de Charles em forma de relatos. Um jovem que perdeu a sanidade de uma tal forma que seu jeito de ser e aspecto físico ficaram totalmente irreconhecíveis. Os médicos não conseguiam identificar a causa de sua enfermidade, pois além de sua loucura, as mudanças físicas não podiam ser explicadas pelos doutores. A história se passa em Providence, Nova Inglaterra, local recorrente nos contos do autor, e a narrativa te prende automaticamente. Juntamente com o Dr. Willet, médico amigo da família Ward, o leitor vai recebendo doses homeopáticas dos acontecimentos que antecederam a essa alteração na vida do jovem Charles, aos 26 anos, internado pelo pai, com muita dor no coração, em um manicômio. E logo de início é nós revelado que Charles desapareceu inexplicavelmente. Mas o Dr. Willet parece ser o único a saber toda a verdade.


Charles gostava muito de antiguidades, e em uma de suas pesquisas descobre um antepassado que fora expulso e de Salém há muito tempo atrás. Quanto mais ele pesquisa a vida de Joseph Curwen, seu misterioso tetravô, mais ele fica obcecado e mudanças vão ocorrendo em seu corpo, como o sumiço de uma marca de nascença e o aparecimento de uma estranha mancha negra em seu peito, e o envelhecimento precoce só não é mais estranho que seu emocional abalado. A história de seu antepassado está recheada de ocultismo e magia negra, com livros malditos e proibidos, e a descrição do ambiente e pessoas é feita de uma tal maneira que você se sente no local, o que aumenta ainda mais o horror. Algumas cenas são tão lúgubres e funestas que você chega a pensar que está lendo algo amaldiçoado. Curwen era um homem ligados a cemitérios e ciências desconhecidas. Num relato perturbador, o suspense é instigante.

Esse livro é com certeza uma boa porta de entrada para possíveis fãs do autor, que após a leitura, fica difícil não ler os demais trabalhos do autor. Seus contos, como esse, estão repletos de seres obscuros e contam história onde o mal parece estar encarnado, ou ainda está. Realmente é terror, diferente do que estamos habituados, uma narrativa que te deixa imerso num mundo que você gostaria de conhecer, mesmo sabendo que seria prejudicial se existisse. Talvez seja esse o motivo do seu sucesso. Além de não termos certeza de coisas do tipo existem, gera um fascínio que nos faz querer mais. Só algo extremamente bom gera essa reação, ou algo completamente inverso. Se parar para pensar, isso também dá medo.


Veja mais H. P. Lovecraft:

NAS MONTANHAS DA LOUCURA