segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MULHER-MARAVILHA: DEUSES E MORTAIS


Foi com muita curiosidade que comecei a ler essa história da maior heroína dos quadrinhos, lançada em 1989 e depois encadernada e relançada na coleção Grandes Clássicos da DC Comics e novamente em outras ocasiões posteriores. Tudo o que eu sabia da Mulher Maravilha era o que foi mostrado no desenho da Liga da Justiça e em suas participações nas HQs da equipe. Confesso que esse interesse surgiu após assistir ao seu filme, logo lembrei dessa fase do George Perez e de imediato surgiu o interesse. E valeu muito à pena. Como o próprio Perez diz, ela é um personagem cheio de altos e baixos durante sua história, sempre com versões e tramas diferentes durante várias décadas de publicações, na tentativa de manter as vendas e variados aspectos foram abordados com novas facetas criadas. Até agente secreto ela se tornou.

Com a reformulação da DC durante ao arco Crise nas infinitas Terras, alguns artistas foram chamados para reformular as origens dos heróis, iniciando sua história do zero e botando em ordem o universo DC. Frank Miller transformou o Batman no que conhecemos hoje, e John Byrne cuidou do Homem de Aço. George Perez escolheu a Mulher Maravilha, e mais do que contar sua origem, ele remodelou e resgatou todo o mundo que ronda a vida da amazona. Sempre tive curiosidade para saber onde os deuses do Olimpo eram situados nesse universo de heróis, e também queria descobrir e entender em que momento das lendas gregas os fatos ocorriam: as Amazonas tem grande importância na lenda de Hércules (ou Héracles), mas em que etapa a ilha de Temiscira foi criada e o centurião de Hipólita foi roubado nesse mundo? Em que ponto Diana foi criada?


Muitas dessas respostas encontramos nessa leitura, e podemos apontar também muitas diferenças com o filme protagonizado por Gal Gadot. Perez, com ajuda do argumento de Len Wein, situa a história alguns anos após o fim da Guerra do Vietnã, onde Ares está desfrutando de enorme poder, podendo subjugar os demais deuses do Olimpo. Nunca aceitara a criação das Amazonas pela deusa Atena, criadas com o intuito pacifistas, e em vários momentos tentou destruí-las, as obrigando a treinarem arduamente na arte da guerra para sobreviverem a vários ataques. Temendo uma nova investida do Deus da Guerra, alguns deuses se reúnem e pedem a rainha das Amazonas que crie e treine uma criança, moldada no barro, que receberia vários dons dos deuses, para poder um dia derrotar o deus tirano, seguindo profecia de que apenas um mortal poderia derrotar um deus. Daí nasce Diana.


O grande trunfo dessa história é mostrar o feminismo não como uma forma de pensar ou ideologia social, mas sim uma defesa contra homens inescrupulosos e usurpadores. Hércules é retratado como um guerreiro egocêntrico e orgulhoso, capaz de enganar, trair,  agir de maneira covarde, que acredita provar sua virilidade desonrando e deflorando aquelas jovens amazonas junto com seus companheiros. Já Ares é o mal encarnado, aproveitando um Zeus desinteressado e utilizando o mundo dos homens para aumentar seu poder. Outro acerto foi utilizar personagens e divindades não muito conhecidas para enfrentar a princesa amazona, como os filhos de Ares, Deimos e Fobos. A arte de Perez vai passeando entre o mundo real, ainda com medo de um embate entre potências durante a Guerra Fria, e o mundo da mitologia grega com o ocaso dos deuses. Os detalhes do cenário, desde o Olimpo até o mundo infernal de Hades, são imaginados com muita beleza pelo artista. Caronte e sua enorme barca, os deuses se reunindo na esperança de sobrevivência, Ruína, a filha da Górgona Medusa, tudo desenhado com esmero por um Perez inspirado.

As diferenças entre essa história e o filme são grandes, pois a produção cinematográfica se inspirou em uma revitalização atual da história da personagem, onde ela é filha de Zeus, e etc., e mesmo assim tem suas particularidades. Mas essa obra de Perez e Len Wein vale a pena, para percebermos o quão rico é esse universo, e o que pode ser trabalhado na histórias futuras, entender como Diana pode interagir com os seres humanos, e simplesmente porque é legal. De tempos em tempos o universo dos quadrinhos se vê obrigado realocar seus personagens para os novos dias, afinal como explicar que o Batman não chegou nos quarenta anos quando já possui quase oitenta anos de existência. Mas espero que todas essas novas ideias sejam tão boas quanto essa.


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MULHER MARAVILHA