terça-feira, 11 de julho de 2017

MAR MORTO


Quando você termina de ler o livro Mar Morto de Jorge Amado, você se sente um pescador. Da maneira perfeita como o escritor descreve a vida desses trabalhadores do mar, você se sente como eles, compartilhando suas experiências e entendendo sua relação de medo e de amor com o oceano. É uma obra linda, dentre tantas obras famosas do autor baiano, essa é minha preferida. Você é tragado pela leitura, angustiado junto com as famílias dos pescadores que esperam eles voltarem do mar. A história tem romance e crítica social, mas o amor do pescador com o mar é que ficará na lembrança do leitor por anos.

Gumercindo, ou Guma, é um dos vários pescadores que trabalham no cais da Bahia e que tem uma vida difícil nas vilas pobres das redondezas. Criado pelo tio Francisco, um dos pescadores mais velhos do cais, ele aprendeu a ser um pescador e lhe foi ensinado as leis do mar. Sua vida e sua sorte agora pertencem à Iemanjá, entidade que todo pescador tem medo e ao mesmo tempo se sente atraído. É destino de muito pescador ter seu encontro final com a "rainha do mar", como ocorrido com o próprio pai de Guma, e para serem protegidos são feitas oferendas e orações em seu nome, num misto de cautela e respeito perante essa entidade. E Gumercindo pode ser considerado um dos seus filhos mais valorosos, que se tornou famoso em cima de sua Saveiro, chamada Valente, conhecido por conseguir salvar um navio de um naufrágio.


O romance que permeia o livro gira em torno de Guma e Lívia, uma das garotas mais lindas do cais, que esperará o marido voltar da viagem ao mar, sofrendo como as outras mulheres, amaldiçoando o dia em que Iemanjá o chamar para seu encontro. Mas com ambos vão morar o casal de amigos Rufino e Esmeralda, essa última se encanta com o marido de Lívia. As consequências dessa relação são catastróficas, onde o destino de um implicará no destino dos demais. E nessa história desfilam os personagens característicos do autor. Sujeitos malandros, de personalidades marcantes, mulheres bonitas e fortes, e acontecimentos curiosos e famosos entre os marinheiros.


A realidade se mistura com lendas de uma forma que não se pode mais definir o que é fato ou ficção, como a história de Rosa Palmeirão, mulher temida pelos homens, com fama de ter sido presa dezenas de vezes e matado muitos valentões. Os casos dos vários marinheiros que ficam até seu navio ir embora, onde contam como conseguiram seus apelidos estranhos, como Chico Tristeza e o negro África. Outros personagens marcantes são Dr. Rodrigo, a professora Dulce, Leôncio. O autor relata em um dos capítulos a lenda do negro Besouro, corajoso capoeirista que derramou sangue nas ruas do cais, o dele e de outros. Mas o que mais impressiona é a tristeza das famílias que perderam seus entes queridos no mar, principalmente as esposas e suas dificuldades após a perda. Lívia sabia que podia ser uma delas, mas mesmo assim era atraída por Guma da mesma maneira que seu amado era atraído pelo mar. As investidas dele e a proibição dos pais de Lívia são boas passagens do livro. A relação dos pescadores entre si e a descrição de suas vidas é que dão o tom desse trabalho, juntamente com o descaso social latente nesse meio, onde muitos pescadores tentam a vida de maneiras ilegais para tentar sobreviver.

Jorge escreveu esse livro em 1936, quando tinha 24 anos. Como ele mesmo afirma, em Mar Morto são narradas histórias que se contam no cais, e a de Guma e Lívia é cheia de lirismo e romantismo. Talvez nenhuma outra obra expresse com tanta emoção a vida dos pescadores. E não é diferente das outras obras do autor que te leva a uma viagem até a Bahia, onde você parece passear entre as casas e conhecer as pessoas encarnados em personagens tão interessantes. Jorge Amado amava a Bahia e ninguém poderia escrever tão bem sobre essa região quanto ele. Mar Morto é prova disso.