segunda-feira, 31 de julho de 2017

LION


Lion é um filme tocante, que nos causa um sentimento difícil de descrever, por nos fazer sentir culpa ou impotência perante à uma situação, ao vermos problemas sociais no continente ao lado, que podem muito bem-estar no outro lado da nossa rua. Não vou entrar em detalhes políticos, pois a análise desse filme nos faz perceber que o problema está no indivíduo e sua contribuição para o mundo, em ações benéficas que podem mudar vidas para sempre e não por um momento. Ambos os tipos de ajuda são válidos, mas em determinada parte do filme conseguimos diferenciar os dois tipos de caridade, uma feita no comodismo, mais comum, onde voltamos instantaneamente ao nosso mundo após a entrega de alguns trocados. A outra é mais difícil, pois a sua vida muda por completo. É uma história real.

Na Índia em 1986, numa cidade bem pobre de interior, Saroo, de cinco anos, vive de maneira precária com a família. Sua mãe carrega pedras, não temos ideai de onde está seu pai, seu irmão um pouco mais velho os ajuda como pode, e o filme logo começa com os dois irmãos furtando carvão em trens em movimento. Num desses pequenos trabalhos, á noite vão a estação de trem em Khandwa, onde acabam se separando e o guri fica preso em um dos vagões, levado até Calcutá. Lá vive como um menino de rua, dormindo em pedaços de papelão e passando maus bocados. Sua sorte muda quando é adotado por um casal na Austrália e já grande decide procurar sua família biológica por intermédio do Google Earth, após 25 anos.


A história é simples, real, tensa e comovente. Em muitos momentos você pensará "nossa, que situação", em outras você esperará o pior de cada ser humano que passa pelo caminho do pequeno. O descaso da população e pessoas que tiram proveito, nos faz ficar apreensivos pelo seu futuro. Também não apontarei os problemas sociais e demográficos da Índia, uma vez que não estamos muito à frente deles, mas dificuldades como o dialeto e falta de estrutura ajudaram ao protagonista ficar ainda mais perdido. Não que sua vida tenha mudado muito após ficar perdido, mas sofrer sozinho é muito pior. Uma família, outro ponto bem trabalhado no filme, é o que toda criança precisa. Li em um site que o filme serve como propaganda do Google, e culpa o diretor Garth Davis por isso. Não concordo com essa inferência, o Google foi uma ferramenta importante para Saroo na vida real, e demonstra o quanto a tecnologia avançou a tal pinto de realizar sonhos em alguns cliques no computador. Está certo que demorou, mas ele pôde fazer isso sozinho. E por ser o primeiro longa-metragem de Davis, tendo sua obra indicações para vários prêmios, acho que ele foi muito bem.


A vida de Saroo mudou, isso graças a um casal do outro lado do mundo, e essa é a ajuda que citei no começo, a que muda vidas, de quem recebe ajuda e quem auxilia. Reencontrar suas raízes após vinte e cinco anos só se torna um objetivo naquele que descobriu o real sentido da família no decorrer de sua vida. Uma vez que você nutre sentimentos fortes pela família adotiva, nada mais lógico que se preocupar pela família biológica que o perdeu e que sente sua falta. E o elenco conseguiu demonstrar bem isso. A história em si já gera comoção, mas poderia ser bem pesado e se tornar até sensacionalista, mas o elenco foi bem escolhido e a história consegue entregar um filme que gera reflexão.

Do elenco três chamam a atenção. Dave Patel interpreta Saroo na idade adulta e já entra para o time de estrelas de Hollywood. Parece que você consegue sentir o que ele está passando, da mesma forma que Nicole Kidman nos faz ter o mesmo sentimento, como a mãe adotiva, que tenta construir uma família feliz e faz de tudo para que isso aconteça. Saber que existe pessoas como ela no mundo real nos dá esperança depois de assistir tanta tristeza. Mas o garoto Sunny Pawar como o jovem Saroo encanta, leva metade do filme nas costas, te deixa ansioso por novas cenas com sua participação, de longe a melhor escolha do filme. Digamos que só por ele o filme já valeria à pena. Após assistir ao filme você fica pensando, sua vida vai continuar a mesma, mas quem sabe você verá Saroo em alguma esquina ou viaduto de vez em quando.




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