sexta-feira, 7 de julho de 2017

A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN


São poucos os inimigos dos super-heróis que recebem o tratamento VIP em alguma história, tornando-se por assim dizer, o protagonista. Na maioria são arqui-inimigos conhecidos do grande público e já com um histórico que o transformou no maior oponente do determinado herói. Coringa, Mercenário, Rei do Crime, Lex Luthor, Duende Verde, Dr. Destino, Magneto, todos eles já demonstraram uma capacidade de derrotar seus desafetos e chamar a atenção, sendo derrotados, mas causando danos imprevisíveis. Kraven, o caçador, não era um deles até o lançamento do derradeiro arco de histórias A última caçada de Kraven.

No começo, o vilão deu trabalho ao Homem-Aranha. Um caçador inveterado, já dominou todas as feras que existem no mundo animal, mas ao avistar o escalador de paredes se dependurando nos prédios de Manhattan, fica obcecado em capturar e derrotar o aracnídeo. Capaz de feitos sobre-humana devido a utilização de uma droga experimental em seu passado, e dono de uma fortuna herdada de sua família, o russo Sergey Kravinoff, ou Kraven, se desloca para Manhattan e promove uma verdadeira caçada pelas ruas da metrópole, apenas para provar para si que não há animal no mundo que não se sobre aos seus pés, até mesmo os que possuem dons inigualáveis como o Homem-Aranha. Sua motivação é apenas essa, e fica cada vez mais determinado em concluir seu intento. Mas as diversas derrotas nas mãos do Aranha o transformaram num vilão de segunda linha, como o Escorpião ou Rino. Em algumas ocasiões era até abordado o fato das drogas experimentais, utilizadas no passado para salvar sua vida após um acidente, terem afetado sua mente e contribuído para suas derrotas.


Mas na época que Peter Parker utilizava um uniforme preto e acabava de se desvencilhar do uniforme simbiótico que futuramente se tornaria o Venon, Kraven tenta dar seu golpe final.  Essa história foi escrita em 1987 por J. M. Dematteis e a arte ficou por conta de Mike Zeck que em quatro edições relatam como o caçador russo conseguiu derrotar e completar seu antigo objetivo. Considerado por muitos como uma das melhores histórias do Homem-Aranha, Kraven sai do time de vilões de segunda linha e se torna o grande vilão que conseguiu vencer o herói. A maneira como a história é contada nos dá uma percepção da profundidade psicológica dos atos de Sergey. O autor consegue exprimir no personagem seu propósito de vida doentio e impossível de ser deixado de lado. Sua vida depende da conclusão de seus planos, sua realização é a única coisa que importa, seu futuro não existirá até conquistar sua vitória.


Outro fato curioso é a abordagem feita em cima da vitória em si. Como vencer um herói? Segundo outros casos de heróis que foram derrotados (se analisar bem quase todos foram), a vitória ocorreu após a morte ou apenas derrota física do personagem. Mas Kraven percebe que apenas matar o Aranha e empalhar sua cabeça como troféu de parede não traria seu contentamento. Era necessário mais que isso, era necessário provar que não conseguia apenas vencê-lo num combate, mas também deixar marcado que sua existência dependia dele, literalmente enterrado sem chances de revanche e literalmente enterrado.

A preparação para Kraven conseguir cumprir fisicamente e mentalmente sua meta são as melhores partes dessa história. Percebemos que o herói era apenas uma manifestação daquilo que queria vencer dentro de si. As formas com que ele vai colocando em prática seu plano e a diversas maneiras de derrotar o seu oponente, tanto o herói quanto seu íntimo, são mostrados genialmente. Escolher um vilão da sua galeria existente, e fazê-lo alcançar o patamar que alcançou é mais meritório do que criar um novo personagem para derrotar o herói, como o feito com Superman ou Batman. Ao final resta a dúvida que fica quando qualquer objetivo é alcançado: qual o próximo passo? Fica também uma lição para quem não está acostumado a perder. Boa leitura.