quarta-feira, 7 de junho de 2017

SHANGRI-LA


Shangri-La é uma daquelas histórias que te pega pelo braço e te leva numa viagem além da imaginação, mas nessa viagem você consegue refletir sobre seu papel na sociedade e seu modo de pensar. Quando chega ao fim você pode notar que algo mudou na maneira como você enxerga o mundo. Há​ muito tempo os quadrinhos europeus se tornaram minha prioridade na leitura, e se preciso escolher o que ler no momento, não preciso pensar muito, e Shangri-La, do francês Mathieu Bablet, é uma das obras com leitura de caráter imprescindível, ou seja, coloque-o no topo de sua lista de leitura. Ela pode ser encontrada no blog Gibiscuits ou Ndrangheta & La Realeza. Dois blogs que valem a pena conferir diariamente. 

A história se passa numa base espacial que abriga o que sobrou da humanidade, após a vida no planeta Terra ficar impossível, devido a guerras, poluição, recursos naturais esgotados e vários motivos que se tornaram lendas para a grande população que habita a Estação, e são comandados pela megacorporação Thianzhu, que controla todos os movimentos das pessoas, criando uma sociedade de consumo autossustentável. Scott é um desses moradores, confiante nas organizações Thianzhu e no sistema social em que vive. 


Scott trabalha diretamente para as empresas Thianzhu, onde é invariavelmente enviado para investigar estranhos acidentes em laboratórios espaciais. O grande mistério é encontrar essas estações em estado semidestruído e ao invés de iniciar uma investigação do que ocorreu, ele é incumbido de destruir o local, exaurindo qualquer chance estudar evidências. Mas Scott faz tudo sem questionar, fazendo seu trabalho confinando cegamente em seus superiores. O mesmo não acontece com outros membros de sua equipe, como seu irmão Vergil, que tenta iluminar a mente do irmão. Scott começa a sentir algo mudar dentro dele após descobrir alguns segredos da Organização, um pior que o outro.

Scott percebe que está no meio de uma grande revolução. Ficar parado aguardando as coisas acontecerem não é mais uma escolha. A história mistura Bíblia e genética, cria uma atmosfera de revolta muito grande, e nos faz pensar em nossa sociedade não apenas criticando a maneira como agimos, mas até nos fazendo pensar que nesse sistema cíclico de relacionamento algumas coisas ruins contribuem para outras tantas coisas consideradas necessárias. A maneira como Bablet expõe várias ideias é sublime e genial. Animais antropomórficos geneticamente modificados, os animoides, são criados e inseridos na sociedade devido à necessidade humana de interagir e perseguir (ou proteger) minorias. A organização também lança produtos de tempos em tempos, como um novo tablet, celular, promoções relâmpago, devido à necessidade humana de consumismo. Dessa forma os humanos são mantidos em redes curta. Mas até quando?


É interessante ver como o autor fala de tanta coisa em menos de 250 páginas e não parecer cansativo. Em muitos momentos você lembra do filme 2001: uma odisseia no espaço, onde satélites e estrutura espaciais parecem dançar nas páginas, e há também um enfoque na criação, onde a causa e efeito cíclica da margens a várias interpretações como no filme de Stanley Kubrick. Um movimento antagônico está presente em toda a obra, criação e destruição, coisas simples e complicadas, sentimentos individuais e união social. Qual o seu papel na sociedade? Shangri-La é bem profundo. Para pessoas que gostam de pensar.