quarta-feira, 14 de junho de 2017

O COMPLEXO DE CHIMPANZÉ


Quadrinhos europeus são perigosos, porque viciam. Mas esse perigo faz bem para quem lê. Basta ler os três volumes do trabalho de Ricardo Marazano e Jean-Michael Ponzio, intitulado O complexo de chimpanzé que você terá sua dose aplicada. A narrativa cinematográfica de Marazano e a arte fotográfica de Ponzio só te fazem querer ler mais obras dessa dupla, unidos ou não. A maneira como o autor induz a história, com surpresas e mistérios instigantes, não te dão escapatória a não ser ler tudo de uma vez, sem conseguir parar. E em muitos momentos você fica contemplando o realismo no traço de Ponzio, ficando curioso de conhecer seu trabalho fora dessa esfera espacial.


No ano de 2035, após ter seu programa espacial cancelado por mais 30 anos pelo governo, Helen Freeman tem que esquecer seu o sonho de ser o primeiro ser humano a pisar em Marte e poder dedicar mais tempo à sua filha, sempre relegada à segundo plano devido ao trabalho de sua mãe, reconhecida como a mais experiente astronauta americana em atividade. Mas seus novos planos de passar mais tempo com a filha e novamente colocado de lado quando uma missão importantíssima, e estranha, é proposta à Helen, reativando novamente seu sonho estelar. Uma capsula espacial cai no Oceano Índico e é resgatada com tripulantes vivos, e suas identificações causam comoção na altas esferas governamentais dos EUA e na NASA. Tratam-se de Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os primeiros homens a pisar na lua em 1969, retornando de sua missão na Apolo 11, após 66 anos no espaço.

Depois de algumas investigações na cápsula e testes nos dois astronautas foi contatado que ambos são quem realmente dizem ser e o equipamento é o mesmo que saiu da Terra 60 anos antes. Restam as perguntas: Por que não envelheceram? O que faziam esse tempo todo no espaço? E a maior questão de todas, quem são os dois tripulantes que voltaram para a Terra naquela época e morreram décadas depois em nosso planeta. Helen fica incumbida de interrogar os dois astronautas e tentar decifrar esse enigma, que apenas terá respostas no espaço.


A história brinca com eventos reais e personagens históricos, como Yuri Gagarin e os já citados astronautas da Apolo 11. A trama gira em torno de Helen e a investigação de fatos secretos da a corrida espacial durante a Guerra Fria, como uma possível viagem dos russos ao planeta vermelho. Em muitos momentos lembrei do suspense de Alien, em outros conseguimos vislumbrar 2001:  uma Odisseia no espaço. Não há muita ação, mas o clima de perigo e mistério está presente nos três volumes. O tempo é intrigante e a mente humana também. Esses dois assuntos são tratados na trama de uma maneira inteligente, onde tanto a aventura principal e o drama paralelo da pequena Sarah que não tem a presença da mãe em sua vida são importantes.

O complexo de chimpanzé é o efeito de perder sua capacidade de raciocinar ou compreender quando colocado numa situação em que não está acostumado ou que lhe gere pânico, não podendo interferir no resultado, e por conseguinte perder a razão e controle de suas ações. Leva esse nome devido aos experimentos com os símios que serviram de cobaias para missões espaciais. O tempo é com certeza a fonte de muita explicação e incertezas, e lendo essa história não teremos a verdade explicada, muito pelo contrário, surgirão muitas outras perguntas. Mas nada nos impede de nos divertir no meio dessa busca por explicações.