segunda-feira, 29 de maio de 2017

BÓRGIA


A história e lenda da família italiana Bórgia, que já foi tema de filmes, séries e faz parte do universo do game Assassins Creed, é perfeitamente compatível com as ilustrações e habilidades artísticas do grande desenhista, também italiano, Milo Manara, que transformou os quadrinhos eróticos em obras de arte respeitáveis. Com diversos trabalhos de sucesso e uma experiência inigualável nesse ramo, seu nome é sinônimo de quadrinhos adultos de qualidade e se tornou um dos grandes nomes das HQs. Seus traços charmosos transmitem um ar sedutor ao leitor, ao mesmo tempo que cria uma atmosfera bonita, bem detalhada, onde paisagens magníficas competem com as mulheres nuas que de maneira sensual se tornam parte do cenário. A arquitetura da época e lugares famosos na Itália nos são apresentados com as lindas cores que o Manara está acostumado a mostrar em seus trabalhos.

A história da família Bórgia se confunde com lendas escabrosas e realidades tão infames quanto. E o escritor chileno Alejandro Judorowsky não se atém a realidade e despeja toda a lenda nas quatro edições desse belo trabalho lançado entre 2006 à 2010, com toda a calma do mundo, uma edição por ano, mostrando o que pode ter havido de pior na história do Vaticano. Diretor, roteirista e protagonista do filme El Topo, de 1970, Judorowsky utiliza toda a sua capacidade criativa para pintar o pior cenário religioso ocorrido na igreja católica e que com certeza pode desagradar algum leitor desavisado, podendo considerar essa obra como um ato profano à ser proibido ou queimado. Mas há de convir que o grande mal não é da crença em si, e sim dos homens que a comandavam.


Pouco anos antes de 1500 o decrépito e nojento Papa está dependendo de transfusões de sangue (que termina nas mortes dos doadores) e de leite materno, que ele consome direto da fonte. Mas seu fim está próximo, o que significa uma guerra sangrenta entre os cardeais que almejam o poder supremo da Santa Igreja. Em meio ao perigo da Peste que assola a Europa, a escolha do novo Papa vai muito além da mera compra de votos ou troca de favores. O jogo político engloba assassinatos, alianças corruptas, chantagem, ameaças, e o cardeal Rodrigo Bórgia está obstinado a se tornar o próximo pontífice, custe o que custar. E em seus planos estão incluídos seus filhos, entre eles Lucrécia, que terá uma importância muito grande nas estratégias​ maquiavélicas do pai.

A luxúria toma forma nos mandos e desmandos dos Bórgias, e só piora quando Rodrigo se torna Papa, adotando o nome Alexandre VI. Orgias na praça santa, incestos engendrados pelo próprio Papa, assassinatos e casamentos arranjados com interesse de salvaguardar o poder da família, devassidão, violência, todo tipo de pecado abominado pela igreja, mas feitos em seu nome e o nome de Deus. A blasfêmia contra à igreja ocorrem quase que em todas as páginas, e em alguns momentos percebemos que os criadores, escritor e desenhista, querem demonstrar o quanto o poder corrompeu a igreja e o quanto desse momento negro ajudou o catolicismo a ser o que é hoje. Na visão deles, a história da imaculada igreja não é nada imaculada, e infelizmente não se pode negar que algo parecido, talvez com menos exagero, possa ter ocorrido. Definitivamente os Bórgias são um dos vários capítulos de um livro que a igreja católica não tem um pingo de orgulho.


Alexandre VI tem todos os defeitos um ser humano poderia ter, e ser chamado de santo aumenta mais seu antagonismo, numa trama que não temos heróis, se você não achar que um opositor da igreja com objetivos parecidos pode ser um. Na verdade há o inflamado líder considerado profeta pelos seguidores, que aponta todos os defeitos do clero em praça pública. Outros personagens famosos fazem sua participação, como Leonardo Da Vince e suas invenções, numa versão que deixaria os fãs do grande gênio com raiva, ou até Maquiavel, como um consultor estrategista dos Bórgias. Lucrécia é uma grande personagem, e Manara usa e abusa de seus dotes femininos em várias cenas de sexo, seu estilo sendo utilizado com maestria pelo escritor.

Nas quatro edições é indicado que o caminho trilhado pela igreja não tinha nada a ver com Deus, e sim com poder e sexo. Os personagens comparam a igreja com uma prostituta, escultores exaltam as feridas de Cristo nas estátuas para alegrar os fiéis, que se excitam com os decotes da virgem Maria. A violência e o sexo se misturam, causando repulsa. Uma leitura para quem está acostumado com Manara, ou já foi apresentado à suas obras. Vale a pena.