quarta-feira, 24 de maio de 2017

BONE


Sou um dos felizardos que cresceu assistindo aos filmes da Disney. Aladdin e Rei Leão eram o máximo, a nas manhãs Mickey, Donald e Pateta faziam a minha alegria. O gosto vai mudando com o tempo, mas em nosso interior fica aquele resquício de vontade de assistir algo parecido, mas que não seja tão infantil. Pode parecer estranho, e realmente é, mas se você ler Bone, de Jeff Smith, entenderá. Em algum lugar li que Bone é o encontro da Disney com Senhor dos anéis. É uma boa comparação se quisermos utilizar poucas palavras para indicar essa HQ.  Na realidade Jeff Smith utiliza toda a sua experiência conquistada animação e mistura seu fascínio por Carl Barks e cria Bone, a obra por qual será lembrado. Seu estilo cartunesco e traço limpo, nos remetem tanto à Disney quanto à Peanuts, e sua história é inspirada num mundo de fantasia que pode muito bem lembrar Senhor dos Anéis (bem antes dos filmes), ou Star Wars com lendas arturianas. No fim é um exemplar único.

Bone é um trabalho pessoal e podemos afirmar que muito da personalidade do autor é colocada nos personagens e na trama, por isso sabemos que Smith é bem humorado e calmo, não se apressa em contar sua história. Nela reconhecemos muitas inspirações do autor e percebemos seu toque pessoal em todas elas. Os três primos Bone foram expulsos do povoado de Boneville devido às más ações de Phoney Bone, o cidadão mais rico de Boneville. Para tentar ajudá-lo nesse momento de desamparo o primos Fone Bone é Smiley Bone o acompanha (à contra gosto) e acabam se perdendo no enorme deserto. Sem água, comida ou um mapa decente para voltar, os três acabam acidentalmente se separando.

Desta forma as aventuras de Fone Bone nos é contada, onde ele se embrenha na selva, sofre com a chegada da neve acaba interagindo com outros personagens, como um dragão vermelho, as criaturas ratazanas sempre oferecendo perigo, segredos do passado sendo revelado à conta-gotas, e o vilão Encapuzado em busca de Phoney Bone por motivos que aos poucos vamos descobrindo. Após Fone Bone conhecer a linda Espinho, e se apaixonar por ela, outros personagens vão sendo apresentados, como a vovó Bene, forte e conhecedora dos segredos da floresta. Já no vilarejo que está em polvorosa com o festival que se aproxima, tendo como ápice a corrida de vacas em que a vovó Bene participa, como corredora (!), fica explicito o motivo do trambiqueiro Phoney Bone sempre estar metido em confusões.

Os três personagens principais tem sua inspiração nos personagens da Disney: Fone Bone é claramente uma referência ao Mickey, e Smiley Bone é a própria encarnação Pateta. Mas eles possuem peculiaridades próprias, que a Disney com certeza não aprovaria em seus personagens. Smiley fuma um charuto atrás do outro e não pensa em duas vezes em participar das tramoias de Phoney, esse sim uma mistura do rabugento Donald com Tio Patinhas, desprovido de qualidades honrosas e arrogância elevada. Enquanto é Fone que tem a tarefa de conquistar as pessoas e tirar os primos das confusões, Phoney não mede esforços em enganar e ser expulso de todos os lugares que frequenta, gerando uma comoção generalizada. Só para ter uma ideia, Phoney Bone, o outrora habitante mais rico de Boneville, já construiu um orfanato em cima de um aterro sanitário. E a razão por ter sido expulso de sua terra natal também é nos contada mais adiante na história, e Boneville é imaginada pelo leitor da mesma forma que os ouvintes das histórias dos primos, sempre pelas suas falas e nunca como uma imagem definida pelo desenhista.


A leitura de Bone é suave, em nenhum momento cansa o leitor. Com um traço característico de Smith, cartunesco, fica bem casado com a trama bem humorada e misteriosa. Em muitos momentos me lembrei de Will Eisner. Além de várias qualidades, Bone tem os diálogos como o seu maior desempenho. Jeff Smith consegue impregnar as falas dos personagens com seus determinados temperamentos e maneiras de pensar. O roteiro é bem cuidado, os acontecimentos nos surpreendem e os personagens não são bobos, e como Neil Gaiman e Will Eisner apontam em seus devidos prefácios, o leitor de Bone está em boas mãos.