quarta-feira, 31 de maio de 2017

ANNE COM UM "E"


A série Anne com um e está disponível no Netflix para quem já comprou uma caixa de lencinhos para enxugar as lágrimas. Mas se você chora com facilidade uma caixa não dará. Para quem não chora, a série tem outros atributos além da emoção, como a boa interpretação da pequena Amybeth McNulty, que merecidamente recebeu vários elogios e terá um belo futuro de atriz pela frente. Acredito até que essa versão de Anne é a que será lembrada. Muito bem feita, com roteiro bem cuidado e elenco de primeira. Um mundo bonito e cruel nos é desenhado em poucos episódios, que passam num piscar de olhos e você fica esperando mais.

Anne é uma órfã que está indo se encontrar com sua nova família. Ela é uma garota tagarela (ao extremo) de imaginação fértil, que idealiza seu futuro e melhora cada momento da sua vida dentro de sua cabeça. Já os irmãos Marilla e Matthew Cuthbert pedem um menino para ajudar o senhor Mathew na fazenda, uma vez que está ficando velho. Sua irmã, de temperamento forte, faz os trabalhos domésticos, mas mesmo ficando de idade, acredita que pode fazer o trabalho sozinha. Ela tem uma enorme surpresa quando uma garota chega até sua porta, devido à um erro de informação no orfanato. A menina não só é totalmente diferente dos dois irmãos, mas de toda a comunidade próxima a fazenda Green Gables em que moram. Ela será devolvida?


Essa foi a primeira decepção de Anne em sua nova jornada, uma vez que várias decepções já ocorreram em sua curta vida. Percebemos que sua imaginação é uma ferramenta criada em sua mente para suportar os problemas que ela já passou em lares adotivos e orfanato. Em lembranças e sonhos vemos o quanto a garota sofreu em atos de trabalhos abusivos, crueldades infantis, falta de carinho e até agressões físicas. Mas felizmente ela nunca perdeu as esperanças. No começo seu falatório pareceu incomodar, mas não demora para você se afeiçoar a seu jeito e até ser cativado por ela, de uma maneira que você deseja ter uma garota como ela perto de você.

A história trata de preconceito, demonstrando o quão enraizada na mente humana está nossa percepção da raça, credo e classe social de maneira a julgarmos cada um por esses atributos. O simples fato de ser órfã já estigmatiza, e para uma criança isso pode ser ainda mais cruel. Mas com seus poemas e seu carisma, Anne tem a capacidade de transformar pessoas e atrair o público, em mais uma série disponível no Netflix, que já garantiu enormes sucessos esse ano. A história de Anne vem de um livro de grande sucesso, escrito pelo canadense L. M. Montgomery, e desde a criação em 1908, já rendeu peças teatrais, filmes para a TV, musicais, desenhos, mas talvez seja essa série que fará a personagem ser lembrada no decorrer dos anos que virão.


O elenco de apoio está fabuloso, como Raquel, a vizinha fofoqueira, ou as crianças da escola, que infelizmente são espelhos dos pais e podem ser ainda mais​ cruéis. Sufragistas lutam pelo avanço das mulheres na sociedade, mas ainda se atrasam no desenvolvimento humanitário. O gentil senhor Mathew (R. H. Thomson) demonstra uma bondade e sabedoria do homem do campo, mas é em sua irmã Marilla (a veterana Geraldine James) que recai a maior transformação. Uma ótima atriz que demonstra no olhar seus sentimentos e junto com Anne fazem dessa série um sucesso. Uma boa dica é assistir e se emocionar com os dramas da garota, mas também se colocar na pele dos agressores e tentar se modificar. Pode ser útil.