quarta-feira, 12 de abril de 2017

THE GET DOWN


Não esperava tanto dessa série do Netflix, e ter começado a assistir sem muita expectativa foi o grande trunfo da trama para me ganhar. Já tem um tempo que eu não assistia uma série que me fazia dar play no próximo episódio após o término do anterior. A temática é o grande motivo de terem conseguido me entreter tão facilmente. Aborda a criação de um novo estilo musical, que gerou uma cultura que se espalhou pelo mundo inteiro, que transformou jovens e estilos de vida: o Hip Hop. Mas a ambientação da década de setenta e a era dos discotecas também são bem apresentadas, sendo a música o personagem principal de Get Down.

A história gira em torno de um grupo de adolescentes que vivem no Bronx, numa época bem propicia para o surgimento do Hip Hop e suas ramificações. Era um bairro violento, com uma população em sua grande maioria de negros, com problemas para arrumar empregos, educação e moradia precária, sendo lembrados apenas em épocas de eleições e relegados à um futuro triste e incerto, a maioria não sobrevivendo ou buscando o mundo do crime, podendo ter o mesmo desfecho. Ezekiel, o Zeke, é um garoto com grande potencial para a música, com uma sensibilidade aflorada, mas com muitas escolhas por fazer. Tentando seu lugar ao sol, ele sente a pressão da família e de sua professora para seguir um caminho profissional numa grande empresa, aproveitando sua inteligência, mas ele sente que está deixando de ser quem é. Uma transformação que todos passamos na adolescência, culminando na vida adulta, para um morador do Bronx em 1977 pode ser muito diferente. Suas opções são poucas, mas Zeke tinha um sonho.


Apaixonado por Mylene, uma talentosa garota que sonha em ser uma cantora de sucesso, Zeke pretende também ter triunfo no mundo da música. Tanto um como o outro serão testemunhas do surgimento de estilos musicais diferentes e ao mesmo tempo unidos no mesmo berço. O talento de Mylene é evidente e seu futuro certamente é formidável, mas o primeiro passo é sempre mais difícil, e conseguir despontar como uma cantora faz com que a trama tenha dois seguimento. De um lado está o Ezekiel com seus sonhos e aprendizados, de outro Mylene, que tem a ajuda do tio, cheio de rolos, "Papa Guerreiro" e do produtor musical falido e problemático Jackie Moreno. Mas seu principal obstáculo é seu pai, Ramon (o ator Giancarlo Espósito, o Gus, traficante dono dos Polos Hermanos de Breaking Bed) um pastor fervoroso e fanático que vê o capeta em todos os atos da filha. Mas seu sangue latino e seu potencial falam mais alto e Mylene não desistirá de seus sonhos, junto com as duas amigas inseparáveis.


Mas o caminho do garoto muda por completo quando acidentalmente conhece um lendário nome das ruas, Shaolin Fantastic, ligado ao mundo do crime, mas que acompanha o desenvolvimento de um novo estilo musical que está ocorrendo nos lugares mais secretos do Bronx, e os amigos de Zeke vão no embalo, cada um com sua importância. O Hip Hop traz consigo a cultura do grafite, as disputas de DJs e Break Dance, e cada garoto representa uma parte desse mundo. É legal ver como algo vai surgindo, com experimentações ou por acidente, com calma ou na pressão. E não sobra dúvidas de que Zeke será o grande MC, com suas poesias rápidas e tiradas de improviso. Nomes do despertar do Hip Hop desfilam na história, nos dando uma aula de como tudo começou, desde Grandmaster Flash até Afrika Banbaataa.


Alguns podem achar a história melodramática, outros que o Bronx não era tão mal assim, mas a história garante um aprendizado muito bom, um valor histórico de primeira, com diversas partes com valor documental, com muitas imagens da época. O grafite está em todos os cantos, e a limpeza demonstra o quanto essa parte das cidade era esquecida pelos governantes. Os detalhes falam muito. E o elenco garante boas atuações, em especial do trio principal. O filho de Will Smith, Justice, interpreta bem o protagonista, e a estreante Herizen Guardiola demonstra ter tanto talento quanto a sua personagem. E ouviremos falar de Shameik Moore, que interpreta Shaolin, no futuro. Os amigos de Zeke também são muito legais, e desculpe aqueles que gostam, mas o ponto fraco está no outro filho de Will Smith que está na produção, o já famoso Jaden Smith, que sempre inexpressivo chega a dar raiva, mas que não compromete o trabalho.

Situar a época de acordo com os filmes que passavam no cinema foi muito legal. Na primeira temporada todos querem ver o filme Guerra nas Estrelas de 77, na segunda temporada é Embalo de um sábado à noite. Bom saber que os negros não deram início ao Blues, Rock, Jazz, Gospel, Soul por acidente, pois repetiram o feito no decorrer dos anos com o Hip Hop, Funk, Disco. E a Série tem um mérito em refrescar nossa memória de que foram os negros que criaram todos esses estilos e movimentos, podemos acrescentar o Samba, Pagode, uma porrada de outros estilos, e que com o tempo foi distorcido, dando uma imagem branca a esses estilos. Não gerando intrigas, tem-se que concordar que os negros sabem cantar com a alma. Assistam Get Down