segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS IMPERDOÁVEIS


Se alguém me pedisse para indicar um filme de faroeste eu não indicaria o filme Os Imperdoáveis. Para quem quer conhecer os heróis do velho oeste e suas façanhas fabulosas eu diria que Era uma vez no Oeste era uma boa pedida, ou tantos outros de John Wayne, e até mesmo a trilogia dos dólares onde conhecemos o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood. Os bons filmes de Bang Bang podem gerar uma enorme listagem. Mas caso alguém que já conhece o estilo e me questionasse qual deles eu mais gosto, eu com certeza diria Os Imperdoáveis. Não quero gerar discussão de qual é o melhor filme do gênero, mas a maneira como essa história é contada e a mensagem que ela passa para os fãs do gênero, nos transmite aquele sentimento de algo está terminando, e que uma era ficou para trás.

Assistir esse filme antes de outros clássicos do faroeste é uma tremenda sabotagem para os filmes de antigamente, pois esse filme desmistifica as figuras heroicas e fortes e das donzelas indefesas. O filme trata da construção e destruição de lendas. Demonstra que o Velho Oeste é triste, sem honra, movido a bebedeiras, com heróis fracos e covardes. E continua machista e cheio de mentiras. Ao mesmo tempo demonstra o lado humano de cada personagem, dos medos e sentimentos que os assolam, e a necessidade de objetivos que guiam suas vidas. O roteiro passou em várias mãos e demorou para Eastwood aceita-lo, e acabou o escolhendo para ser seu último filme como ator, promessa quebrada várias vezes depois, mas trata-se de seu último filme no gênero que o consagrou.


A história se inicia quando uma prostituta é retalhada por um cowboy, que já vinha trazendo problemas à pequena cidade de Whisky Land, mas o xerife Bill Daggett (Gene Hackman) exige apenas uma indenização do rapaz e seu companheiro, afinal são jovens bêbados que cometeram um erro na juventude e tem toda uma vida pela frente. Esse ato enfurece as garotas do bordel, que decidem oferecer uma recompensa para quem matar os dois cowboys. A notícia se espalha e o jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett) decide conseguir a recompensa, e aproveita que o aposentado e viúvo pistoleiro Will Munny (Eastwood) está tendo dificuldade financeiras com sua criação de porcos e com dois filhos para cuidar e pede sua ajuda, e o velho só aceita ajudar se estiver em companhia de seu antigo parceiro, Ned Logan (Morgan Freeman).

Mas o xerife não quer pistoleiros em sua cidade e Little Bill, como é chamado, utiliza como exemplo um lendário pistoleiro que chega ao local, acompanhado de um jornalista que está escrevendo um livro sobre suas façanhas. É nessa parte que vemos as lendas do velho oeste irem para o ralo. O lendário pistoleiro English Bob (Richard Harris) é humilhado em público pelo xerife, destruindo toda a história que o pistoleiro trazia consigo. Daí em diante nos deparamos com a realidade, de que atos heroicos condizentes com o gênero, não terão vez nessa história. Os heróis tem dificuldade de montar no cavalo, erra os tiros, não são aquilo que suas histórias e palavras contam, Will observa que só a agia por intermédio do álcool, agora estão ainda piores, pois a idade cobrou as contas de tantos e anos de abusos, e não seria uma lenda que faria Little Bill se amedrontar. Pelo contrário, o jornalista começa a seguir os paços do xerife, mudando o protagonista de seu livro. E ficamos apenas aguardando o encontro dos personagens, onde um jovem inexperiente e dois velhos enfrentarão a verdade com suas vidas.


O tratamento artístico e fotografia do filme são fenomenais, enquanto David Webb dá exemplo de como um roteiro deve ser feito, as atuações de Hackman como o vilão com causa (que mereceu o Óscar) e Eastwood como o atormentado protagonista ficarão para sempre na história do cinema. Demorou para Hackman aceitar o papel, e Clint nos apresentou um pistoleiro bem diferente dos que interpretou e que foram mostrados nos filmes dirigidos pelos mestres a quem ele dedica esse filme: Don Siegel e Sérgio Leone. E Clint não apenas dirigiu, atuou e produziu esse filme. Ele deu uma mão até na trilha sonora, além de só aceitar fazer o filme após o roteiro estar perfeitamente do seu agrado. Valeu a pena, afinal era a sua despedida.


O passado é uma sombra tanto para os personagens quanto para os atores que trabalharam no filme. Um herói das antigas que agora se tornou um viúvo cansado e sem expectativas, arrependido e necessitando de álcool para ser o antigo pistoleiro de antes. Mas uma segunda chance desponta no horizonte. Um filme que deve ser visto não só para quem gosta do filão, mas para quem gosta de filmes em geral, afinal está em qualquer lista dos cem maiores filmes dá história. Vencedor de vários prêmios, entre eles o de melhor filme em 1992.

Cada personagem tem suas verdades e mentiras escancaradas, mesmo algumas delas ficando para o público desvendar. Enquanto Schofield tenta montar a sua história, Will e Ned tentam esquecer as suas. Will vive a sombra de sua fama de pistoleiro cruel, matador de criancinhas, e ao assistir o prefácio e epílogo do filme, dois textos que abordam a estranha união com sua falecida esposa, que o ajudou a mudar de vida, ficamos com a dúvida se seu passado é real ou se é apenas umas das lendas que rondam o Velho Oeste.