sexta-feira, 17 de março de 2017

O CONTADOR


Nos quadrinhos e nos filmes os roteiristas se esmeram para nos apresentar heróis com problemas comuns e com motivações fortes para escolherem o caminho do bem, o que pode ser uma vingança ou apenas um ideal a alcançar, respeitando um exemplo ou sendo um. No filme O Contador, o protagonista tem uma motivação inabalável para cumprir seus objetivos e continuar se aperfeiçoando física e mentalmente, e essa motivação pode ser muito mais eficaz do que qualquer outra: autismo. E o filme trata do assunto de maneira calma e muito interessante. Em um site li que essa história tenta dar aos autistas um exemplo de herói para se identificarem, mas não concordo com essa comparação. De certa forma o personagem de Ben Affleck da exemplo de motivação para todos que estão assistindo e em muitos momentos eu me identifiquei com ele.

Affleck interpreta muito bem Chris Wolff, um brilhante contador, autista, com enorme dificuldade de se relacionar com as pessoas, sendo mais íntimo dos números do que com outro ser humano, metódico, perfeccionista ao extremo e com necessidade obsessiva de terminar o que começou. Esse comportamento foi utilizado pelo pai, um militar, como uma maneira de treinar o filho, e também o irmão, em lutas e utilização de armas desde criança. Direcionando os toques e personalidade de maneira doentia, foi forjando os filhos para serem os melhores no que faziam. E Chris, além de se tornar um ótimo lutador e perito em armas, também se tornou um contador excepcional, que trabalha para a máfia e age como justiceiro nas horas vagas. Sempre a um passo à frente do FBI, ele é procurado por uma grande corporação para descobrir o que há de errado nas contas da empresa, e Chris acha facilmente onde está o rombo, mas devido a essa descoberta ele terá que fugir e proteger a contadora que o ajudou, num esquema que parece ser maior do que ele imaginava.


Chris demonstra ter, em vários momentos, a Síndrome de Asperger, que tal qual ao cômico Sheldon Cooper, de Big Bang Theory, não aparenta ter qualquer sentimento ou preocupação por outra pessoa, mas seus atos o contradizem e ele demonstra que seus objetivos nobres são a razão de sua existência. Ainda mais quando ele é obrigado a sair de sua rotina, que contém algumas esquizofrenias como se auto infringir dor enquanto ouve música num volume ensurdecedor. Chris é um herói atípico. Mais sério que o Batman. Um homem que tem como objetivo obsessivo fazer justiça, e que foi condicionado à isso. Interessante ver como esse transtorno compulsivo foi direcionado para treinar e moldar a personalidade de uma maneira que só alguém com esse transtorno poderia aguentar. Ele não é feliz, nem tão pouco sua vida muda com seus atos, mas ele o faz pois não consegue viver de outra forma.


O mais legal do filme é que ele é uma colcha de retalhos, um verdadeiro quebra cabeças, literalmente, onde cada peça vai se encaixando, as vezes você encaixa uma parte que depois vai se unindo a outras, por vezes você imagina uma imagem que não é a correta, que te faz voltar a buscar peças, e aquela pecinha final só é colocada no final do filme. E cada parte montada é uma surpresa. Muito difícil falar desse filme, para que nada seja entregue. Uma dica é prestar atenção nos detalhes. O roteiro brinca com isso, onde nada ocorre por acaso. E o passado e futuro vão se montando na sua frente, desde as lembranças de Chris com seu pai e irmão, as lembranças que tem da mãe, até os personagens coadjuvantes tem seus segredos que vão se encaixando no todo, nos dando o sentido da história.

Além de Affleck, caras conhecidas farão com que esse quebra cabeças seja bem interessante. JK Simons é o agente do FBI, que tenta identificar um certo contador, junto com uma nova agente. Anna Kendrick é Dana, a garota indefesa que estava vasculhando o lugar errado e se torna uma dupla de Crhis, cada vez mais misterioso, já Jon Bernthal esquece um pouco o Justiceiro da série do Demolidor e interpreta o misterioso Ray, que trabalha como assassino de aluguel. Lógico que todos eles tem seus segredos e motivações. São essas motivações que dão o toque final ao filme e nos faz pensar em nossas próprias motivações e pensar em como um autista pode nos ensinar, em como sermos pessoas com mais força de vontade. O filme pode não ser perfeito em algumas partes, e alguns críticos asseguram que é uma tentativa de inicio de franquia. Assista esse filme e tire suas próprias conclusões.