segunda-feira, 20 de março de 2017

AO CORAÇÃO DA TEMPESTADE



Se fosse para fazer uma lista dos artistas que mais contribuíram para o desenvolvimento das histórias em quadrinhos, o nome de Will Eisner estaria no topo. Não por coincidência o mais importante prêmio dos HQs leva seu nome. Receber um Eisner é o sonho de qualquer artista nesse ramo. Ler uma de suas obras é um aprendizado. Seu domínio pela arte sequencial, sua maneira única de contar histórias, seu ritmo inconfundível e seu jeito de transformar cada página em vislumbre são toques geniais. E uma de suas obras mais emblemáticas e importantes é Ao coração da tempestade. Em uma das diversas introduções em reedições ele explica que tinha a intenção de contar a história de vida de um jovem que viveu no início do século e que lutou na segunda Guerra Mundial, mas não teve como ele não se inserir nessa história e podemos considerar essa Graphic Novel (termo que só se tornou conhecido por sua causa) a sua biografia.

E sua história se confunde com a história americana no começo do século XX. A narrativa começa com soldados sendo levados de trem para um lugar que eles mal sabiam onde ficava, e tinham em mente que lutaram contra os nazistas para defender o sonho e a liberdade americana. Mas enquanto olha os lugares pela janela do trem, o jovem Will vê sua vida passar na sua frente, onde os momentos mais marcantes são relembrados como num filme. Lembra de sua juventude como filho de um imigrante judeu no Bronx e das dificuldades de sua família, seja financeiramente, pois viviam na pobreza, seja no preconceito contra os judeus. O antissemitismo é um assunto recorrente nas histórias de Will Eisner, e em Ao coração da tempestade podemos perceber o quanto ele e sua família penaram devido a discriminação. Mas seu pai sempre estava preparado para lhe dar alguma lição de vida, muito calmo e esperançoso de que as coisas haveriam de melhorar.
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Legal ver como ele informa o ano ou a época em que relato está ocorrendo, de forma indireta, com um jornal jogado em um canto, ou a notícia da Guerra ou da grande depressão de 1929. Para quem já conhece o estilos de Eisner, já sabe que a expressão corporal dos personagens e seus olhares e trejeitos ajudam a contar a história. A característica dos personagens são bem trabalhadas, seus sentimentos são transmitidos em suas ações e palavras de uma forma que você consegue determinar o caráter e sonhos de cada um. Eisner era um mestre nessa arte e nos dá uma experiência de como os quadrinhos podem ser trabalhados, com todos os seus conceitos e caminhos, utilizando as páginas com maestria e abusando do estilo que apenas os quadrinhos podem oferecer. Em uma sequência temos o pai de Will planejando abrir uma loja de móveis usados, virando a página na sequência seguinte vemos o pequeno Will brincando na neve e seu pai conversando com o irmão em frente à loja, informando que já haviam aberto o negócio há um ano e que as vendas não iam bem. O ritmo é rápido, e mesmo assim você não se perde pé não se sente jogado de um lado para o outro. Flui como suas próprias memórias, isso tudo devido a maestria com que Will monta sua biografia, procurando colocar cada quadro no exato lugar, sem precisar economizar na arte para caber na página, e acredito que mesmo se ele tivesse que contar sua história num número limitado de páginas, nós não perceberíamos.

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E as memórias de Will demonstram o quanto cada passagem marcou sua vida, a ponto de serem inseridos na história. Os ensinamentos pacifistas do seu pai, e das reclamações de sua mãe, sempre tentando pressionar o marido a seguir os passos de pessoas que se tornaram importantes e com sucesso. A história que sua mãe conta, sobre seu passado e o destino que seus irmãos tiveram e triste e comovente, e seu pai, um sonhador incorrigível, demonstra com sua própria história, como a religião é a guerra mudou sua vida, mesmo não sendo ele o protagonista em nenhuma das duas. Evitando os problemas que os judeus estavam para sofrer na Europa ele foge para a América, e mais uma vez tentando fugir da guerra ele se casa para não ser convocado. Não era covarde, mas não entendia porque não resolver tudo pacificamente.

E as pessoas que passaram por sua vida e deixaram essas marcas desfilam nas páginas nós fazendo relembrar as pessoas que passaram em nossas próprias vidas. Como a garota que conhecemos em nossa infância e se tornou um primeiro amor, aquele colega que brigamos e ficamos amigos, no caso de Will era o filho de um alemão que juntos construíram um pequeno barco. A tempestade do título nada mais é que os problemas que todos nós passamos no decorrer de nossas vidas e de maneira tão pessoal que nos encontramos bem no coração dessa tempestade (a chuva é também recorrente nas obras de Eisner). Quase no fim vemos Will se tornar um cartunista trabalhando várias horas por dia sem ter uma vida social ou tempo para si, assinando seus desenhos de formas diferentes para dar a impressão de terem mais funcionário em sua pequena empresa. Mas ao ler essa Graphic Novel, no fim o que fica são nossas próprias lembranças. Ele conta sua história fazendo o leitor lembrar das suas próprias experiências. Só um gênio faria isso.

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