segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

HERÓIS X GOVERNO

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O governo pode ser o pior inimigo dos super-heróis. Não o governo de países socialistas ou ditatoriais, mas especificamente o governo americano, que tem o poder de criar a discórdia ideológicas e jogar cidadão contra o outro. Se num país como o Brasil isso já ocorre quando o assunto é política, imagina nos EUA, ainda mais nessa era Trump onde nunca antes democratas e republicanos estão tão divididos. Fica fácil imaginar histórias como Watchmen, Guerra Civil da Marvel ou Nova Fronteira da DC, ocorrerem. Até mesmo a Saga de Cadmus da Liga da Justiça sem limites. Não dá para falar de todas as histórias, e lembramos apenas das mais ilustres.

Acredito que a história que melhor apresenta esse embate entre governo e leis de restrições de super-heróis mascarados seja a perfeita Graphic Novel Watchmen do grande gênio Alan Moore. Ela consegue mostrar de maneira cativante os acontecimentos que antecedem a proibição das ações dos vigilantes, como aconteceu a transição e o retorno dos heróis na era moderna. É interessante entender que o governo só consegue colocar em prática essa lei quando converte o super ser mais poderoso da Terra para seu lado, no caso o Dr. Manhattan, fazendo a maioria dos heróis se aposentarem ou prestar serviços secretos ao governo, que precisa limpar suas sujeiras. Lógico que alguns heróis são contra, e são caçados, presos ou mortos, mas sempre tem aquele que não é preso, que continua agindo como vigilante e teimosamente age contra o governo, como o nosso querido Rorschach. Temos o governo, o herói da pátria, o foragido e por fim os rebeldes.

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Em Batman: O cavaleiro das trevas, Frank Miller nos apresenta um mundo parecido, com os heróis perseguidos e o Superman fazendo a vez de herói do governo, utilizado para vencer guerras e finalizar conflitos. Num primeiro momento Batman se aposenta, não por causa do governo, mas devido à morte de seu parceiro, o menino prodígio Robin. Mas após anos, o cinquentão volta a utilizar o manto do morcego. Ele não aguentava mais ver no que o mundo estava se transformando, em especial sua cidade, com gangues em todos os cantos e violência desenfreada. Como Rorschach, ele não liga para o poderoso herói do governo e parte pra briga, mais para ser um símbolo do que para realmente vencer. E muitos o seguem, na realidade cada cidadão sente em seu íntimo uma melhora inspirada por Batman, tão bem transmitida no terceiro filme da trilogia Batman de Nolan. Nessa HQ, o governo de Ronald Reagan e sua caça por comunistas é o principal motivo dos heróis terem desaparecido, além da velhice, é claro. Mas não há uma guerra entre heróis. Nem precisaria, o embate do Super com o morcegão já dá conta do recado.

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Já no especial em dois volumes DC: A nova Fronteira, os fatos ocorridos em Watchmen são transferidos para o universo das DC. Muito legal ver como a lei que proíbe vigilantes de agirem sem cadastramento transformaria o universo DC na década de 50, onde a Sociedade da Justiça se aposenta e tem um integrante morto, o Superman e a Mulher Maravilha agem para o governo e mais uma vez Batman (Bat-Man) age na marginalidade. Mas confesso que o que mais chama atenção em A nova Fronteira é a homenagem à era de ouro dos quadrinhos, onde tudo estava começando, existia um entusiasmo científico, tecnológico e espacial, e tudo era novidade e diferente. E nessa HQ a caça aos comunistas voltam ao escopo do roteiro, onde o governo americano expande suas ações na Guerra Fria, na corrida armamentista e espacial, com espionagens e propagandas nacionalistas, e os heróis da era de prata vão surgindo em meio à todo esse turbilhão.

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Devido ao enfoque cinematográfico, a Guerra Civil da Marvel talvez seja o mais conhecido duelo entre heróis e governo atualmente. Não é novidade termos heróis contra a pátria e vice versa, mas transformar isso em um grande evento é uma ferramenta para vender quadrinhos em época de baixas vendas, e carente de vilões decentes para seus heróis, a Marvel optou em colocar herói contra herói, de um lado o herói do governo Homem de Ferro defendendo o registro dos heróis e se tornando um vilão com princípios, e do outro o Capitão América, agora um fora da lei. No filme, que não é bem uma guerra, consegue direcionar melhor as ideologias dos personagens do que nos HQs. Muitas outras histórias tiveram esse enfoque, uma lista enorme. Mas quem acha que o Governo americano tentou destruir os heróis apenas na ficção, é porque não conhecem Fredric Wertham.

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Ele foi o psiquiatra alemão que publicou o livro Sedução dos Inocentes onde pontua vários fatores dentro dos quadrinhos que contribuem para a delinquência juvenil e outros desvios comportamentais. Utilizando diversas HQs e pontos de vistas equivocados, ele defendia a tese de que os gibis eram uma má influência para os leitores, como um relacionamento homossexual entre Batman e Robin, a Mulher Maravilha aparentava ser lésbica, os quadrinhos de terror eram cheios de mensagens subversivas, etc. O senado americano deu início à investigações, não tomando ações oficiais contra às editoras, no entanto chegam a pedir bom sendo em "conselhos" que amedrontaram a indústria de HQs, que se reuniram e criaram o Comic Code, um selo de qualidade que era estampado nas capas das HQs dando segurança aos pais dos leitores, informando que aquela revista passou pelos crivos do politicamente correto. Batman ficou sorridente, histórias de cunho infantil tomaram conta e era a primeiro tiro de uma guerra dos heróis contra os sensores sem noção. Mas as teorias de Wertham não sobreviveram ao tempo, o Comic Code deixou de ser usado, e o heróis ganharam essa guerra. Imagine só se tivessem perdido: o governo americano teria cassado Alan Moore e Warren Ellis igual ao Bin Laden, e obras como Transmetropolitan seriam queimadas em praça pública. Como qualquer forma de arte, os quadrinhos são uma forma de expor o que sentimos, seja contra o governo ou o que quer que seja, e temos os heróis para nos ajudar.

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