sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O XANGÔ DE BAKER STREET

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Foi o segundo livro de Jô Soares que li, e talvez o quarto com o Sherlock Holmes desvendando mistérios. Os aspectos do detetive estranhamente utilizados com humor pelo autor, que foge à regra de tudo o que foi escrito para o personagem de Arthur Conan Doyle. Para alguns fãs mais ortodoxos pode parecer um desrespeito, mas para outros uma homenagem. Uma coisa é certa, após ler o livro você acaba vendo Holmes com outros olhos. E Jô Soares não poderia fazer diferente, afinal ele está sendo ele mesmo. Seus livros seguem um esquema de mistério, história ambientadas em épocas passadas, humor negro e personalidades reais se misturando com eventos e personagens fictícios. É o que acontece com Sherlock em O Xangô de Baker Street.

No Brasil de Dom Pedro II , em 1886, Sherlock Holmes desembarca no Rio de Janeiro para desvendar um mistério á pedido do imperador: o sumiço de um raríssimo violino Estradivários, e de quebra ajudar a polícia na captura de um serial killer, que tal qual Jack Estripador, assassina mulheres e estranhamente coloca a corda de um "instrumento musical" junto aos pelos pubianos das vítimas. Lógico que Holmes junta às peças dos dois crimes e o torna um só. Com a ajuda de seu fiel amigo Watson, que o acompanha em todas as suas aventuras, Sherlock terá que enfrentar um dos maiores mistérios de sua vida. Em companhia do investigador Melo Pimenta, o detetive britânico se embrenha pelas ruas do Rio de Janeiro e se depara com figuras comuns nas paragens cariocas, e o clima e culinária nacional acaba afetando seu modo de pensar, tornando ainda mais difícil desvendar o grande mistério, do roubo do violino e das mortes em série.

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O mistério em si não é lá muito difícil de desvendar, mas em geral as histórias do detetive não eram diferentes.  Tanto em histórias como Um estudo em vermelho e também O Cão dos Baskerville, os mistérios finais não eram tão surpreendentes, mas a maneira que Sherlock desvendava o mistério, com suas deduções lógicas que o faziam identificar todos os acontecimentos anteriores apenas checando o ambiente e conhecendo a maneira das pessoas pensarem, roubavam a cena. Mas em O Xangô de Baker Street, Sherlock está sofrendo com o ambiente exótico em que ele está, bem diferente de sua querida Londres. Suas deduções, célebres por definir a pessoa apenas pelos seus trejeitos e vestuário, resvalam na verdade e causam certas confusões. E estar em um país tão diferente de sua terra e suas consequências é o principal assunto no livro.

Ele tem problemas com o calor, com a comida pesada, e com os costumes brasileiros. Em meio à investigação, o investigador vai até um terreiro onde o pai de santo lhe revela ser protegido por Xangô (que aliado ao seu endereço em Londres dá o nome do livro). Em outra ocasião ele se envolve com uma prostituta, uma linda mulata, que decide mostrar ao detetive os atributos da cannabis. Existe uma alegoria nos livros oficiais de Holmes que indicam a utilização de cocaína em seu famoso cachimbo, que o ajuda a pensar. Mas maconha causa outros efeitos, bem longe daqueles que ele estava acostumado. Imagine ele na brisa investigando corpos. Seu relacionamento com a moça abre uma faceta do personagem que nunca havia sido mostrada nos livros. Talvez pelas histórias serem narradas pelo amigo Watson, o envolvimento de Sherlock com outras mulheres sempre foi uma incógnita. No seriado Sherlock há até cenas engraçadas a respeito de ambos serem considerados como um casal homossexual. Mas a mulata consegue desabrochar algo no detetive, e mesmo sendo uma garota de programa sem qualquer ligação com o mundo investigativo, ela consegue desvendar um mistério pessoal do inglês.

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Em alguns momentos você percebe que está querendo encaixar alguma piada, forçando a narrativa numa direção que você já sabe no que vai dar, e em outros momentos você imagina o Chapolim Colorado no lugar do protagonista. Mas você consegue se envolver, e se imaginar no Rio de Janeiro de 1886, carnavalesco, com a moda da época, algumas favelas, etc, evidenciando o trabalho de pesquisa que o autor está acostumado a utilizar em suas obras. O filme lançado em 2001 foi bem fiel ao livro, e até o autor participa. Mas no fim, apenas uma coisa me incomodou, e foi bastante. Não estragando o final, com a elucidação do mistério, o autor se mostra muito pretensioso de dar ao icônico personagem o único mistério que ele não conseguiu resolver. Até entendo a abordagem mais humana do detetive, que o coloca num patamar de um reles mortal, que é o que realmente ele é, mas bem que ele merecia levar uma vitória do país depois de toda a experiência que teve. Mas fique tranquilo, o final não desagrada e você fica sabendo quem é o criminoso. Vale a pena ler.

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