sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A BRUXA



É muito legal assistir um filme e se surpreender, e olha que A Bruxa teve muito marketing induzindo o público a esperar o melhor filme de terror feito. Realmente é um dos melhores do gênero, mas com enfoque bem diferente dos filmes que causam sustos, gritos e correria a todo o momento, que vai criando tanta expectativa para um final frustrante. A Bruxa tem pouca ação e sustos, mas cria um ambiente de horror magnífico, causando incômodo. Há um embate entre o bem e o mal durante toda a trama, e você não sabe o que é pior, se é a dificuldade de seguir uma religião que te faz ver o pecado em tudo que o cerca ou se é a tentação que não dá sossego, seja na necessidade de mentir, sexualidade reprimida ou simplesmente medo do desconhecido. É o primeiro filme do diretor Robert Eggers e ele começou muito bem. O elenco é desconhecido, mas competente, em especial Anya Taylor-Joy, a jovem Thomasin que nos conta sua história e os percalços que sua família sofre na Nova Inglaterra em 1630. Acredito que a veremos  muito em breve em outras produções.

O filme é perturbador, e você entra de cabeça na época, por causa da ótima ambientação e acaba se sentindo como membro da família expulsa de um vilarejo cristão, devido às diferenças religiosas com o patriarca, William (Ralph Ineson), e devem viver à própria sorte, com seus cinco filhos. Não demoram a encontrar um lugar para dar um reinício à suas vidas, construindo  um pequeno sítio, onde poderiam plantar milho e criar alguns animais. Thomasin, a filha mais velha pré-adolescente, ajudaria a mãe nos afazeres domésticos e na criação dos dois filhos pequenos e do recém-nascido Sam. Já Caleb auxiliaria o pai com a plantação. Mas desde a chegada da família nesse local escolhido sentimos que algo está errado, um dos motivos que nos dá essa percepção é o acompanhamento musical, que gera uma tensão escondida, indicando o perigo da escolha do novo lugar. Eventos tristes e tenebrosos começam a acontecer, mudando por completo suas vidas, mostrando que o medo pode dominar sua crença e destruir sua fé, e o pior, te faz entender que essa fé sempre foi mascarada e esquecida nos momento de necessidade.


A primeira prova de que o mal os cerca é o desaparecimento repentino de Sam, dos braços de Thomasin. O sumiço é tido como culpa de lobos, mas sabemos que o pequeno Sam é raptado e sacrificado por uma bruxa, que mora numa cabana embrenhada na floresta. Mas o enfoque principal está nas consequências desse desaparecimento em cada membro da família. Coisas ruins não param de acontecer e enquanto o pai enxerga esses fatos como um teste para sua fé, a mãe acredita que estão sendo castigados por terem saído da comunidade em que estavam. Fica evidente que a religiosidade é o principal assunto abordado na história, onde percebemos a impossibilidade de cada integrante seguir o caminho que sua crença exige. O garoto começa a sentir sua sexualidade aflorando ao ver as formas dos seios da irmã e o pai, tão conhecedor das escrituras sagradas, se vê traindo suas palavras ao faltar com a verdade perante a esposa e se calando ao ver seus filhos encobrindo mentiras. Tanto a mentira como o prazer sexual são atos que conduzem o pecador ao inferno, segundo suas crenças. Até o próprio bebê desaparecido tem sua culpa discutida, uma vez que não fora batizado e morreu com o pecado da concepção.


Outro contraste que o filme mostra é que a fé em Deus não se mostra suficiente para salvar a família, e talvez esse seja o real sentido do filme ser tão perturbador. Thomasin é a garota pura, que sofre por abandonar seu velho mundo à caminho do desconhecido e ora à Deus para perdoar seus pecados, mas vê que um mal mais poderoso que sua fé está destruindo sua família. Ela começa a perceber a discrepância nos atos dos pais e sua crença começa a ficar abalada por um Deus que parece não ligar para eles. O ambiente de solidão unido com perigo desconhecido faz com que os valores que possuíam fossem trocados. Enfim há uma troca de valores, Thomasin é a melhor representante disso. Ao ver o filme você percebe que as bruxas é uma representação da busca das mulheres pela libertação, e a fuga do caminho proposto pela sua religião.

Nesse contexto, historicamente as bruxas seriam perseguidas e queimadas em fogueiras anos depois, na tentativa de retomada do poder pelos homens, mas o estrago estava feito. O que mais agrada nesse filme é o desfecho, tanto na conclusão quanto na perturbadora cena final. Um filme simples, com poucos cenários e efeitos. Sem necessidade de continuações e capaz de te fazer pensar, você termina o filme assustado, pois algo pode estar rondando sua casa e seus pensamentos e você só perceberá quando for tarde demais. Uma observação: as vozes de Ralph Ineson e de um personagem no final são marcantes. A liberdade de desejos reprimidos tem um custo alto.


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