terça-feira, 29 de novembro de 2016

3%

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A Netflix tem grande consideração pelo público brasileiro, e não é por menos. O público nacional que trocou a TV paga e também a TV aberta pelo seu serviço é assombroso. Séries como Narcos e Stranger Things se tornaram assuntos de roda de bar, e o serviço de streaming consegue atingir todas as faixas de público. Além disso o atendimento que eles oferecem é algo ainda surreal ao público brasileiro, acostumado à atendimentos ruins, que exigem paciência e muito tempo do cliente. A Netflix carece resolver alguns problemas, como facilitar o pagamento para quem não trabalha com cartão de crédito e também com a defasada lei brasileira quanto aos seus trâmites operacionais. Suas concorrentes, as TVs por assinatura, estão fazendo de tudo para dificultar o trabalho da Netflix, que não irá desistir do Brasil, prova disso é a estreia da sua primeira série feita em nossas terras.

Intitulada 3%, a série tem uma proposta inovadora para projetos feitos no país. Lançado todos os 8 episódios da primeira temporada dia 25 de Novembro de 2016, foi baseada numa curta web série e se passa num futuro distópico, onde o planeta está numa tremenda miséria, falta comida, água, respeito, e conta a história de um selecionamento de jovens, que disputam entre si, com o objetivo de serem escolhidos para viverem num lugar melhor. Quando o jovem completa 20 anos eles têm o direito de se inscrever para o Processo, e tal qual uma entrevista de emprego, eles tem que demonstrar o porquê são merecedores para participar das provas que levarão apenas 3% dos participantes ao tão sonhado Maralto.

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Após alguns processos, eles começam a competir em grupos e são sempre assistidos pela equipe coordenadora, chefiada pelo misterioso Ezequiel (o ótimo ator João Miguel). As provas consistem em fazer os participantes vencerem seus medos, trabalhar em equipe, testar seus limites, sua inteligência e moralidade, entre outros. Um terrorismo psicológico, que vai transformando os candidatos de uma tal maneira que o lado bom que cada um possui começa a ser vencido pelo que eles tem de pior. Após anos de uma utópica paz no Maralto, um assassinato ocorre no "lado de lá", fazendo a eficácia do Processo ser contestada. Para isso membros do conselho enviam Aline para inspecionar o Processo e também Ezequiel, que não vê essa "invasão" com bons olhos.

Dentre tantos participantes, o grupo de Michele (Bianca Comparato) nos dá visão dos acontecimentos. Ela tenta trilhar seu caminho sem criar inimizades entre as várias provas do Processo e talvez seja a personagem mais difícil de se definir, uma vez que ela própria está se descobrindo e tentando apagar marcas de seu passado. Desse grupo fazem parte o esperançoso Fernando, que mesmo preso à uma cadeira de rodas, tenta mostrar seu valor e conseguir chegar ao Maralto. Mesmo convivendo com o desdém dos demais candidatos, sua fé no Processo tem caráter realmente religioso, bem diferente de Rafael, que desde o começo utiliza de trapaças e meios escusos para seguir em frente nas etapas que vão se seguindo, sempre com aumento nas dificuldades.

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Mas 3% não situa seus personagens na linha do bem ou do mal. Todos tem seus lados bons e seus lados negros. A deslocada Joana demonstra não ligar para todos e aparenta ter forjado seu jeito de ser após vários anos vivendo nas ruas e escombros perigosos do Continente, também mostra ser muito esperta e revela seu lado bom nos momentos que mais precisam. Um contraste bem feito podemos fazer com Marco, jovem com espírito de líder, de família conhecida por sempre passarem no Processo, mas que ainda precisa aprender a maior lição de sua vida. Mas o procedimento que elege a pequena parte dos candidatos não pode ser tão perfeito, uma vez que conseguem chegar em seus objetivos através de méritos que esbarram em deixar seus entes queridos para trás, pessoas que não venceram ou que ainda vão tentar passar para o "lado de lá". Não se tem uma vitória nisso.


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A série chama a atenção e tem tudo para dar certo. Lógico que há alguns defeitos, decorrentes da falta de costume do brasileiro em assistir uma obra nacional que trate do tema ficção cientifica ou até mesmo de futuro distópico. As novelas dominaram por muitos anos a mente e cultura do país, e a Netflix logo de primeira joga uma ficção como essa na cabeça dos telespectadores. Mas até aí, tudo bem, melhor para aqueles que não aguentam mais novela. Mas realmente alguns diálogos são um tanto forçados, talvez pelo elenco ser novo, algumas falas não soam naturais, em especial a atriz e modelo Viviane Porto, que interpreta Aline, que parece pouco à vontade no papel e sempre que fala não transmite o que o personagem pede. Algumas provas parecem ser resolvidas de uma maneira pouco convincente, mas posso garantir que a série vale à pena. O Brasil precisa inovar, ter filmes de qualidade (saudade de Cidade de Deus) e ter programas diferentes na TV. Temos muita cultura para ser trabalhada e relembrada, tomara que haja mais séries brasileiras no futuro, mais animações, filmes, histórias indígenas ou caipiras, futuristas ou de época, e chega do mais do mesmo. O Brasil merece o Netflix, e vice e versa.