segunda-feira, 7 de novembro de 2016

1808

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Ao terminar de ler o livro do jornalista Laurentino Gomes, você entende o porquê do Brasil não dar certo. Não que haja uma desculpa para tanta corrupção e roubalheira na política e termos uma cultura que idolatra o “jeitinho brasileiro” às escuras, mas somos frutos de algo que começou errado em 1500, e só foi piorando de lá para cá. Um grande exemplo de como o Brasil é vitorioso apenas por ainda existir é a vinda da família real à sua colônia tupiniquim, fugida covardemente de Portugal. Ler o livro de Laurentino Gomes deveria ser uma obrigação para quem está estudando e feliz é aquele que lê sem obrigação. É uma curiosidade atrás da outra e difícil é não se sentir revolta por tantos atos inglórios perpetrados pela família real e sua horda de seguidores, milhares de nobres que lotaram os navios portugueses, juntos com ratos, baratas e piolhos.

Napoleão era o terror, que deixou Portugal numa sinuca com a Inglaterra e Don João VI, o príncipe regente, empossado após sua mãe ser clinicada como insana, amedrontado pelo perigo napoleônico que ele sabia não ser capaz de domar, decide fugir para a colônia na América do Sul, com toda a família real e tudo, praticamente tudo, que tinham de valor. No livro é narrado o sentimento dos portugueses que se sentiram traídos pela coroa que decidiu fugir a salvá-los de uma eminente invasão. O autor despende alguns momentos para Napoleão, mas se atém ao principal, que é a chegada de Don João e seus familiares, ao Brasil. A viagem e os problemas que eles tiveram no mar, sendo que se tratava de todo o governo e funcionários do estado português, ou seja, a nobreza, deixando Portugal à míngua.

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As figuras do príncipe e sua mulher, a antipática Carlota Joaquina, são bem esmiuçados no livro. Suas paixões, medos, atitudes, brigas, tudo tem suas particularidades estuadas e mostradas por Laurentino. As fobias do príncipe, que temia trovões e caranguejos, tendo casos hilariantes decorrentes desses problemas narrados no livro, sem contar a falta de tato de Don João de tomar atitudes necessárias. Era um covarde, inseguro. Lembro bem de uma parte em particular que demonstrou como seria o olhar de Don João, ao entrar nos lugares sendo o centro das atenções, olhando para todos os lados, incerto, sem saber que fazer. Conseguimos nos situar no momento histórico em que tanto o Brasil quanto Portugal estavam, onde Portugal já era uma corte falida, mesmo tendo uma colônia tão rica, sendo a Inglaterra e alguns países da Europa os maiores beneficiários dessas riquezas. Ficava claro que a única opção para Portugal continuar sobrevivendo e também para a Inglaterra continuar dando as ordens era fugir. O Brasil acabou arcando com os gastos desse monte de pessoas e em especial com o grande empréstimo feito com os ingleses. Como o colocado antes, o Brasil só serviu para ser espremido.



E o livro vai indo, despejando informações que você vai assimilando sem problema algum, no seu tempo, parando para pensar em muitos momentos, sentindo-se como aquele morador do Rio de Janeiro, que com esforço conseguiu construir sua casa e se vê obrigado a abandoná-la para que sirva de moradia a algum nobre que a requisitara para ser sua nova residência. Ou daquelas pessoas que esperavam pessoas requintadas para seus banquetes tão cuidadosamente preparados e vê seus nobres convidados comerem igual a porcos, tirando as coxas de galinha com a mão e enfiando na boca sem nenhuma cerimonia. Da mesma forma que Carlota Joaquina ganhou a fama ade ser infiel e uma tremenda mocreia, a alta nobreza da cidade carioca tentava imitar seus trejeitos e indumentária, sem saber que a princesa considera a colônia um lixo. O escritor pesquisou bem, e dá detalhes da cidade do Rio de Janeiro naquela época, com escravos por toda a parte, sujeira em qualquer lugar, cheiros horríveis exalando pelas ruas e sem nenhum saneamento ou esgoto dignos de um ser humano. Isso tudo contrastava com eventos pomposos e luxuosos, em especial o Beija Mão, onde os nobres faziam fila para beijar a mão da majestade.

Com a vinda da corte, o Brasil teve que ter sua estrutura melhorada, talvez seja esse o único beneficio que esse evento trouxe para o país, e após ler toda essa fatídica história, ainda temos os efeitos que ela causou, tanto na cultura nacional como no futuro do país. Cheio de dividas a saldar com seus credores, ficava certa a necessidade de deixar o Brasil a própria sorte, pagando o ônus de tantos gastos e luxos. Muitos são os detalhes e para quem gosta de estudar a história esse livro deve ser lido imediatamente, junto com os demais que seguem 1808, como o 1822 e 1889.  Um livro maravilhoso e altamente recomendável. Tire suas próprias conclusões.

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