quinta-feira, 22 de setembro de 2016

BLACK HOLE


Se pudéssemos colocar todas as histórias em quadrinhos numa estante e separar o apelo artístico de cada uma elevando sua posição nas prateleiras, nas mais altas só ficariam aqueles trabalhos reconhecidos como obras de arte, e Black Hole de Charles Burns estaria nessa posição. É muito difícil ter a percepção tão apurada e a competência de traduzir suas ideias para o papel como o feito por este autor, em um trabalho minuciosamente árduo e recompensador tanto para quem cria quanto para quem lê. Ele demorou uma década para concluir seu projeto, que ficou perfeito, digno de ficar para sempre na prateleira mais alta de qualquer estante. Ele é um dos artistas que devem ser reverenciados, como Moore, Eisner e Barks.

Em Black Hole, o autor ambienta a história em Seattle, na década de 70, focada nos jovens que herdaram o pior da juventude anterior: drogas, promiscuidade e uma doença sexualmente transmissível que se manifesta de maneiras diferentes, podendo causar simples manchas à  deformações terríveis. Para essas pessoas que se transformaram em aberrações aos olhos das pessoas normais, resta apenas a escolha de se excluírem da sociedade se exilando nas matas, em acampamentos, junto com outras pessoas doentes que não conseguem esconder suas deformidades. 
Resultado de imagem para charles burns BLACK HOLE
Muitos problemas podem ser analisados com essa premissa, sendo a AIDS o primeiro que me vem à mente, como um simples ato feito na juventude pode mudar por completamente a vida inteira de um ser humano. A juventude é tratada aqui como realmente é vista pelo jovem. Ser popular, descobrir coisas novas e conseguir ficar com quem está gostando são os únicos objetivos de uma geração que ainda não se deu conta dos malefícios que as drogas trazem e as usam indiscriminadamente. O medo do futuro, a ansiedade de conquistas, a noção fantasiosa de que tudo é fácil de ser resolvido e as consequências serão poucas. Isso tudo se contrasta com as escolhas absurdas feitas por alguns jovens no impulso, como que se o futuro não importasse.

Tudo isso nos é contado de maneira primorosa, aonde os personagens principais vão sofrendo as consequências de seus atos e da sociedade em que vivem. Chris é uma garota popular em sua escola, linda, com sonhos e vida social invejável, que se apaixona por Rob, com quem tem relação sexual, mas se surpreende ao descobrir que o garoto possuía uma pequena boca abaixo do pescoço. Seu pesadelo começa quando seus amigos descobrem um grande corte em suas costas, que começa a descamar, e pronto: sua vida muda completamente, sempre vista com maus olhos por estar "bichada". Uma garota que considerava as aberrações como fracassados agora era uma delas é precisará conviver com isso.

Resultado de imagem para charles burns BLACK HOLE

Keith sempre teve um amor platônico por Chris, e não se preocupa em transar com Elisa, uma garota doente que possui um rabo, mesmo sabendo que ela tem a doença e que iria contrair esse mal. Keith já estava usando muitas drogas e seu amor por Chris trilhava seu caminho. Foi na casa de traficantes maconheiros que ele conheceu Elisa, que se apaixonou por ele, mesmo ele ainda tem planos para conquistar sua antiga amada. Keith é um rapaz inseguro, que por impulso toma atitudes que deverão ser enfrentadas durante toda a sua vida. E a arte em preto e branco de Burns, altamente reconhecível, dá o tom perfeito para a história. Os devaneios alucinógenos, lembranças e sonhos  são contadas em quadrinhos com ondulações, e não nos perdemos em momento nenhum.

O legal é que a história não aborda a doença em si, com explicações científicas ou especulativas. A maneira como os jovens interagem com ela é que é interessante, sendo que para um jovem um simples fato de ter espinhas pode ser interpretado como uma deformidade, dado ao exagero inerente a essa época de nossas vidas. Outro paralelo um tanto mais doloroso seria com as pessoas que excluímos de nossas mentes nos momentos que nos convém, mas que continuam nas ruas, com dificuldades, com seus problemas físicos e sociais. E se fôssemos um deles? Talvez seja essa a ideia do título, Black Hole (buraco negro) que pode ser a imagem da vagina, que é muito importante na trama e apresentada em varias insinuações no enredo, e também pode ser o buraco negro onde jogamos tudo o que não queremos para que consigamos viver. Uma obra prima.

Resultado de imagem para BLACK HOLE CAPA