quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O DIA DO CURINGA


Li o livro O dia do Curinga numa época de minha vida que não era para eu ter lido. Só depois fui conseguir absorver de maneira satisfatória o que o autor queria incutir na mente dos leitores. O escritor norueguês Jostein Gaarder te faz pensar em todos os seus livros, em especial a sua obra mais famosa, O mundo de Sophia, nos fazendo refletir e compreender a filosofia no seu mais alto grau de absorção, e nunca de maneira chata. Devido a ensino carente que tive nesse assunto, sempre tratei a filosofia como algo enfadonho e tedioso, mas foi Gaarder que trouxe de maneira atraente esse assunto e eu pude enfim dar valor e até a compreender alguns assuntos. Na verdade a compreensão não seja a palavra certa, pois o questionamento é o objetivo principal, ou pelo menos foi o que fez comigo após ler suas obras.

No livro O mundo de Sophia, a protagonista questiona: “Você já pensou que num baralho existem muitas cartas de copas e de ouros, outras tantas de espadas e de paus, mas que existe apenas um curinga?" Em o Dia do Curinga, Jostein Gaarner nos apresenta dois mundos em um só. Um garoto de 12 anos chamado Hans-Thomas foi abandonado por Anita, sua mãe, oito anos antes, para fazer uma viagem de autoconhecimento, mas agora com 12 anos, ele e o pai decidem ir à busca da mulher após verem uma foto dela numa revista na Grécia. Como um road movie, pai e filho atravessam a Europa, da Noruega até Grécia, e é nessa viagem que todo o desenvolvimento da história acontece.


Seu pai tem dois hábitos, beber e colecionar curinga de baralhos, chegando muitas vezes a abordar algumas pessoas que estão jogando cartas para solicitar o curinga, uma vez que poucos jogos utilizam essa carta. Pode parecer chato para um garoto ficar tanto tempo dentro do carro com o pai, numa busca que pode dar em nada, o tempo nunca passa, ainda mais quando eles são desviados do caminho por um estranho anão que trabalha em um posto de gasolina e que presenteia Hans com uma lupa. Após chegar à cidade indicada pelo anão, Hans visita uma padaria, onde o padeiro lhe presenteia alguns pães doces. Para surpresa de Hans, num desses pães havia um pequeno livro, com letras miúdas que só poderiam ser lidas com a ajuda da lupa que recebera de presente. A partir daí Hans começa a adentrar, junto com o leitor, no mundo apresentado no livrinho.

Enquanto vamos acompanhando a relação de pai e filho durante a viagem, nós nos deparamos com a aventura de um naufrago que chegara a uma ilha apenas com o baralho de bolso, e com o passar do tempo começa a conversar com as cartas, e vendo-as perambular pela ilha formando uma pequena sociedade. O calendário deles pode ser o mais interessante. Temos 52 semanas e 52 cartas do baralho. Lá eles possuíam 13 meses, um para cada número do baralho, com 28 dias cada, restando um dia a cada ano bissexto. Esse dia era separado dos demais naipes, era um dia especial, o dia do Curinga. O garoto começa a perceber algumas relações da história com sua própria vida. Ele se questiona sobre sua existência e vê no Curinga, um ser totalmente diferente das demais cartas da história, uma relação com ele próprio.



Particularmente acho que esse é o melhor livro de Jostein Gaarner. Ele te faz pensar durante dias e pode até mudar seu modo de agir. Consegue te prender a algo complexo de maneira simples. A história fantasiosa, que nos lembra tanto Alice no pais das maravilhas quanto As viagens de Guliver pode nos dar um tapa na cara quando enxergamos em nós mesmos algumas ações adotadas pelas cartas de baralho e nos distanciamos do inconformismo do Curinga, que questiona sua própria existência e questionamentos, aceitando as explicações que nos são dadas pelo simples fato de estar escrito num livro e não necessitamos pensar a respeito. Nesse contesto a mãe do garoto talvez tenha uma explicação para seus motivos (tá certo, abandonar a família pode não ajudar muito). O livro tem as reviravoltas dignas do autor, e no fim queremos ser como o Curinga, diferente dos outros, sem naipe, sem conformismo, como um filosofo em busca de explicações para sua própria existência.