sexta-feira, 29 de julho de 2016

DESOLATION JONES


Warren Ellis é sem dúvida um dos maiores nomes dos quadrinhos da atualidade. Dono de um jeito peculiar de escrever, ele te derruba de paraquedas no enredo, onde você é encarregado de acompanhar sozinho o que aconteceu antes da história começar, com doses homeopáticas do passado sendo lançadas nas páginas e montando um quebra cabeça que apenas no final você consegue realmente visualizar por completo. Mas devido à maneira cativante em que ele escreve, com surpresas e diálogos inspirados, recheando a trama de referências do mundo real e fictício, nós não nos sentimos perdidos e conseguimos acompanhar todo o desenvolvimento sem precisar apelar por retornar as páginas anteriores para entender o que está acontecendo. Em Desolation Jones não é diferente.

Lançado pela Wildstorm em 2005, as primeiras seis edições nos traz o pouco que foi lançado dessa série que infelizmente não teve vida longa devido a vários problemas do autor, mas isso não vem ao caso. O que foi lançado vale a pena ser lido, em especial essas primeiras edições que são comentadas aqui, com a arte de J.H. Williams III, onde conhecemos um personagem bem típico de Warren Ellis. A história se passa em Los Angeles, que serve secretamente como uma prisão a céu aberto para agentes secretos que não estão mais a serviço por diversos motivos, em especial devido a terem sido utilizados em experimentos científicos pesados que os tornaram incapazes ou com dificuldade de convívio social por causa de efeitos colaterais adquiridos. É lá que vive Desolation Jones, talvez o agente que mais tenha sofrido e alterado nessas experiências.



Após sobreviver ao Teste de Desolação (uma tortura insana que alterou geneticamente seu corpo) feita pela MI6, Michael Jones escolhe se mudar para Los Angeles a ser morto pela organização secreta. Lá ele atua como um investigador, com vários amigos no meio que estão na mesma situação que ele e com habilidades que podem ser úteis ao seu trabalho. Com a pele acinzentada, cabelos brancos, com uma aversão pela luz solar que o faz utilizar enormes lentes negras para proteger os olhos, Jones passeia pelas ruas da cidade com um casacão laranja que faz as pessoas estranharem como ele aguenta tanto calor, ao mesmo tempo em que indagam se ele não tem senso de ridículo. Warren Ellis utilizou um projeto do arquiteto John Lautner, que nos anos 60 arquitetou varias casas com estilo arrojado, para situar Jones em um lar: chamada de Chemosphere, que mais parece uma nave espacial, onde por dentro o nosso agente aposentado vive sozinho em total breu.

Na história não é contado, mas Jones aparenta ter fama como investigador na cidade, por isso ele foi contatado por um Coronel adoentado para que ele encontre um item roubado de sua coleção de vídeos pornográficos: um filme caseiro protagonizado por Adolf Hitler. Isso mesmo! E devido ao seu teor raro, esse vídeo tem um valor inestimável. É aí que a história começa a ter um teor de Noir, em que o investigador vai desenrolando um novelo de lã, onde o mistério não está apenas no crime e seu idealizador, mas também nas intenções não reveladas pelo cliente, misturada com uma trama familiar e a relação estranha que as três filhas do Coronel têm entre si.


Millar utilizou como pano de fundo o livro A Big Sheep, do escritor Raymond Chandler, onde o detetive Philip Marlowe faz as vezes de investigador particular. Esse livro já foi utilizado no cinema no filme À beira do abismo, estrelado por Humphrey Bogart, e depois em A Arte de Matar, como James Stewart, onde o ator Robert Mitchum talvez tenha feito a melhor interpretação de Philip Marlowe. É legal ver como Warren Ellis soube dosar bem as histórias, de um Noir antigo, misturado com eventos atuais e contesto de agentes secretos, passando por momentos que nos fazem lembrar filmes da década de setenta onde a violência e palavreado chulo contrastavam com o ambiente praiano cheio de palmeiras. Os outros agentes que ajudam Jones a desvendar o mistério em troca de dinheiro ou favores futuros seriam mais bem utilizados no futuro se o autor continuasse a série. Quem sabe?