segunda-feira, 13 de junho de 2016

ALDEBARAN


Uma ótima surpresa lida nos últimos anos. Aldebaran é original, bem feito, demonstra o poder imaginativo do autor, com roteiro dinâmico que impressiona pelo mistério e prende sua atenção não te fazendo querer parar de ler (trata-se daquelas histórias que te faz entrar de cabeça no enredo e te faz sentir como se estivesse na aventura) e os personagens que vão te conquistando aos poucos. Mesmo sendo uma história que aborda temas de ficção cientifica e viagem espacial, com animais estranhos e lugares perigosos, a relação dos personagens e seus sentimentos são destacados e fazem a história tomas caminhos surpreendentes. Com tantos fatos importantes que podem mudar o mundo, a escolha de uma pessoa pode fazer a diferença para todos.

Em 2047 a sonda espacial Galileu Galilei descobriu um planeta similar a Terra na Constelação de Touro, com atmosfera e fauna propicia para a vida humana. Denominada Aldebaran devido à estrela que o plante orbita, era questão de tempo para que uma nave tripulada fosse enviada para colonizá-lo, o que de fato ocorreu no ano de 2079, após as viagens na velocidade da luz se tornaram possíveis. 1500 pessoas escolhidas pela ONU começam a colonização, estudando o solo e a geografia local, mas na viagem de volta a nave misteriosamente desaparece no caminho com alguns poucos tripulantes. Dez anos depois uma nova nave tripulada com 2500 colonos é enviada à Aldebaran, mas também desaparece, suspendendo novas viagens espaciais que utilizam a velocidade da luz, até que o problema seja resolvido, deixando os primeiros colonizadores de Aldebaran a própria sorte, sem comunicação com a Terra.


Isso tudo nos é revelado rapidamente, por meio de notas explicativas, juntamente com uma rápida descrição do novo planeta, sua geografia (quase que totalmente aquática), e seus animais estranhos.  A história começa cem anos após a chegada dos colonizadores iniciais, em uma época em que acontecimentos incomuns alteram a maneira de agir em animais exóticos do planeta, em especial as criaturas marinhas, que parecem querer fugir do grande oceano, mesmo que isso signifique morte por sufocamento. Quando Marc, um filho de pescador, leva a jornalista da cidade para sua vila a procura de um forasteiro, a água do oceano solidifica. Fugindo com medo e encontrando sua amiga Kin no caminho, são avistados pelo forasteiro, que já havia informado a todos que a população da vila estava em perigo e deveriam fugir o mais rápido possível. Ninguém havia acreditado nele, e ao chegar à vila descobrem que todos foram dizimados e a vila totalmente derretida. Um estranho ser pode ter sido a causa dessa destruição e o forasteiro parece saber mais do que aparenta.

Com o tempo vamos identificando a personalidade de Kin, uma jovem estudante com espirito rebelde, e Marc, adolescente que está desenvolvendo seus sentimentos sempre em conflito. Não demora muito para a dupla se meter em confusão, batendo de frente com os líderes locais, que tentam manter a ordem por meio de força e violência. Aí começas as aventuras, onde é formado um grupo (Kin, mar e a repórter entre eles) para descobrir ou identificar essa criatura que está (ou coisa?) que está ameaçando suas vidas. No grupo também há inimigos, que estão acompanhando a equipe devido à pressão dos líderes e igreja do povoado colonizador, o que torna essa expedição ainda mais perigosa, onde atravessam pântanos, florestas e regiões inacessíveis.


O escritor e desenhista Leo, brasileiro naturalizado na França, demonstra que fez um estudo exaustivo para criar uma fauna impar, condizente com o ambiente desse novo planeta, ao mesmo tempo em que tenta dar um tom inédito a essas criaturas, que estejam de acordo com o ambiente que vivem e que parecem ter evoluído conforme os animais da Terra, se adaptando e tendo suas singularidades. Mesmo vivendo entre eles pode décadas, os colonos não tinham muitos recursos para estudar exaustivamente esses animais, e muitos deles ainda eram estranhos para Kin e companhia, e o leitor acaba descobrindo junto com o grupo como esses animais interagem com o meio ambiente.

Leo possui um traço parecido com o de Milo Manara, as cores e a maneira como a história é contada nos faz estranhar como alguns quadrinhos de super-heróis não adota esse procedimento narrativo, cativante, surpreendente, onde o mistério é envolvente e os seres humanos são retratados como são, sem um heroísmo ou vilania injustificável. Uma das melhores HQs que já li na vida.