segunda-feira, 30 de maio de 2016

WATCHMEN



Watchmen é considerado uma das obras literárias mais importantes do século XX, e também o trabalho mais aplaudido de Alan Moore. Sua inspiração estava ligada no máximo quando lhe foi negado a utilização dos personagens comprados pela DC Comics da extinta Charlton Comics. O autor foi obrigado a criar um novo grupo de heróis baseados nos personagens da antiga editora, que a DC incluiu em seu universo de heróis, como o Besouro Azul, Pacificador, Capitão Átomo e Questão. Mas, mais do que criar um novo grupo de heróis, Alan Moore deu vida a um mundo tão interessante, com conotações nunca antes vista em uma história em quadrinhos. Sem as amarras que o prendiam a um personagem já conhecido, Moore pôde fazer o que quis com suas próprias invenções, que misturam fatos reais e fictícios de uma maneira original, que nos faz pensar não apenas no nosso mundo e nas agruras de nossa sociedade, mas também presta uma homenagem ao mundo dos quadrinhos e critica os caminhos que essa arte estava tomando (e ainda está).

Antes da Segunda Guerra Mundial, seguindo os passos de um justiceiro mascarado, um policial decide também fazer justiça com suas próprias mãos e como o Coruja acaba fazendo parte de um grupo de heróis chamados Minutemen. Era uma época um tanto inocente, mas que já demonstrava trejeitos deslocados da época na figura do integrante Comediante, que além de ser violento e capaz de atos não tão heroicos, demonstrava que o tempo estava mudando. Essa Era de Ouro teve fim com a debandada do grupo, mas que foi reestruturada nos anos 60 com um novo grupo, com Coruja II, Espectral, Rorschach, Ozymandias e novamente o Comediante, ainda mais truculento e pronto para extravasar sua sede de violência em um mundo cada vez mais caótico. 

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Até aqui o mundo mostrado em Watchmen segue a linearidade de nosso próprio mundo, pois a presença desses heróis não causou impactos que mudassem a rumo da história do planeta. Em alguns momentos eles eram vistos como palhaços fantasiados, em outros eram considerados como ameaça aos criminosos. Mas tudo muda quando um cientista sofre um acidente nuclear que o transforma não em um super-homem, mas num semideus. De pele azul e capaz de ações inimagináveis, Dr. Manhattan mudou o curso da história apenas por existir. Amedrontando a URSS com sua presença e seus poderes a guerra fria tomou outros rumos, a Guerra do Vietnã foi vencida pelos americanos (mesmo com o sabor da vitória ainda sendo amargo) e dando um status nunca tido pelos vigilantes, que passam a ser perseguidos pela população após a polícia largar mão de seus distintivos devido às ações desses mascarados. Após tantas revoltas e manifestações a Lei Keene proibiu a ação desses vigilantes, ficando apenas Dr. Manhattan e Comediante na ativa, trabalhando para o Governo Americano. Apenas Rorschach mantem suas atividades como fora da lei.



Mas tudo isso nos é contado no meio da história, não apenas no decorrer da trama, mas também nos anexos de cada edição, em forma de prosa, como por exemplo, varias partes de uma biografia lançada por Hollis Mason, o primeiro Coruja, com relatos de sua vida heroica e pessoal. São nesses relatos que sabemos que fim levaram os outros Minutemen.

A história em si começa com uma investigação de um assassinato. O que para os policiais é um caso misterioso envolvendo um possível latrocínio, para Rorschach trata-se de um complô para tirar de circulação os heróis por algum motivo que ele tenta desvendar. Suas suspeitas aumentam ainda mais quando descobre que a vitima nada mais era que o velho herói Comediante, e por aí tudo que já foi falado vai sendo revelado em conta-gotas. Rorschach é sempre tratado como um lunático, o que faz os demais heróis fora de ativa duvidar de suas suspeitas. Mas quando até mesmo Dr. Mahhrattan se torna, de forma original, em uma das vítimas, Coruja II e Espectral começam a suspeitar que o amalucado Rorschach possa ter alguma razão. Quem está matando esses ex-vigilantes? Quem ganha tirando eles do caminho? O que a história do passado pode ajudar os heróis a solucionar os mistérios da atualidade? 



Além do dilema dos heróis e o distúrbio coletivo que rondam a história, temos muitos outros atrativos para ler Watchmen. Muitos desses atrativos são marcas registradas dessa série, como o jornaleiro e seus palpites sociais, o garoto que lê seu HQ ao lado da banca sem pagar nada e parecendo totalmente alheio ao que acontece a sua volta. HQ esse, que por sinal, é também uma história a parte, intitulada Contos do Cargueiro Negro com a aventura de um náufrago atacado por piratas. No fim de cada edição / capítulo há uma surpresa, um incremento para a trama na forma de textos tirados de fontes fictícias que dão mais detalhes desse mundo fantástico.

Moore trabalhou muito bem o perfil dos personagens principais. Rorschach além de parecer um mendigo lunático considerar seu uniforme e máscara como seu verdadeiro rosto, já o Coruja II parece ter se tornado um homem deprimido e sem coragem após sua aposentadoria obrigatória. Até Dr. Manhattan tem seus momentos de reflexão, sendo um ser com tanto poder que se sente deslocado do mundo. No fim ficamos com aquela pergunta se realmente necessitamos de heróis e se eles realmente existissem eles estariam preparados para agir como tal, aguentando o peso desse simbolismo. Quem vigia os vigilantes?