terça-feira, 26 de abril de 2016

UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ


Muitos livros já representaram um mundo pós-apocalíptico, mas dentre esses livros temos um que aborda o tema de maneira singular. Escrito em plena Guerra Fria, onde o mundo vivia com medo de uma guerra nuclear, o escritor Walter M. Miller Jr. ganhou o Prêmio Hugo em 1961 por Um cântico para Leibowitz, sua única obra lançada em vida e considerada uma das maiores histórias de ficção. O autor era católico fervoroso e em sua obra ele conseguiu introduzir fortemente o tema religioso, por intermédio dos personagens principais, todos ligados à abadia que guardava os arquivos de uma era anterior.

A história começa como qualquer romance de época, e você custa a descobrir que tudo está se passando no futuro, pois os personagens andam de burricos e não tem luz elétrica. Um noviço Francis faz seu jejum quaresmal para ser aceito como membro na abadia próxima ao deserto em que ele se encontra, onde há um pedido em andamento para beatificação de Leibowitz, um padroeiro considerado santo.  Eis que a árdua tarefa de prosseguir coma quaresma é interrompida por um velho andarilho que começa a atormentar o rapaz, mas que acaba fazendo Francis descobrir uma entrada secreta em ruínas na proximidade e encontrar documentos e papeis da civilização anterior e sobre Leibowitz.


O principal trabalho da abadia era guardar toda a memória do passado, que copiavam por gerações toda a recordação (sem saber direito o seu significado) de Leibowitz, um cientista do passado que decidiu criar a ordem para salvar toda a memória de tudo que ocorreu antes do dilúvio, que transformou a Terra e jogou toda a humanidade em uma nova idade das trevas. Tais documentos encontrados não podiam ser bem interpretados, uma vez que eram de uma época muito mais avançada, e a única coisa que Francis podia fazer era guardar, cuidar e defender os papeis encontrados do abade do mosteiro, ao mesmo tempo em que ajudava a santificar Leibowitz, ainda mais com a lenda crescendo quanto à identidade do velho peregrino, que alguns achavam ser uma aparição do próprio Leibowitz.

Na segunda parte há um grande salto no tempo, onde o mundo está passando por um novo Renascimento. O mundo se divide entre povos e tribos, mas já estavam mais esclarecidos, diferente da humanidade que culpou os cientistas pelo grande dilúvio (que nada mais era que uma grande Guerra Nuclear), e fez com que todos os conhecimentos científicos fossem esquecidos e destruídos (restando apenas a Abadia de Leibowitz a tarefa de guardar o pouco que foi salvo e foram perseguidos por isso). Agora, num mundo mais esclarecido, a Abadia recebe a visita de um filosofo famoso para estudar todo o acervo, onde o gentil abade Don Paolo mantém uma amizade com um velho amalucado que se diz ter mais de cem anos, enquanto tenta receber seu convidado estudioso da melhor maneira possível.


Na última parte temos a conclusão dessa história cíclica, onde o mundo conseguiu avançar tecnologicamente e novamente entrou em guerra. A ordem tenta fazer o que pode para manter o pouco de paz que ainda resta num mundo hostil e radioativo.

O legal de acompanhar essas três histórias interligadas é conseguir identificar os traços de uma época na outra. Na última parte a velha estatua de Leibowitz está em decadência, enquanto na segunda ela foi escondida e na primeira estava ainda sendo esculpida. Um olho de vidro é motivo de chacota, enquanto no passar dos séculos esse mesmo olho é uma relíquia sagrada. O que mais chama atenção é o velho peregrino que aparece inexplicavelmente nas três partes da história. O livro termina como começa, demonstrando a decadência, evolução e novamente a decadência da humanidade. Talvez seja por isso que o escritor tenha cometido suicídio aos 73 anos de idade, em 1996. Mas ele deixou sua marca com esse grande livro.