sexta-feira, 14 de setembro de 2018

WATCHMEN



Watchmen é considerado uma das obras literárias mais importantes do século XX, e também o trabalho mais aplaudido de Alan Moore. Sua inspiração estava ligada no máximo quando lhe foi negado a utilização dos personagens comprados pela DC Comics da extinta Charlton Comics. O autor foi obrigado a criar um novo grupo de heróis baseados nos personagens da antiga editora, que a DC incluiu em seu universo de heróis, como o Besouro Azul, Pacificador, Capitão Átomo e Questão. Mas, mais do que criar um novo grupo de heróis, Alan Moore deu vida a um mundo tão interessante, com conotações nunca antes vista em uma história em quadrinhos. Sem as amarras que o prendiam a um personagem já conhecido, Moore pôde fazer o que quis com suas próprias invenções, que misturam fatos reais e fictícios de uma maneira original, que nos faz pensar não apenas no nosso mundo e nas agruras de nossa sociedade, mas também presta uma homenagem ao mundo dos quadrinhos e critica os caminhos que essa arte estava tomando (e ainda está).

Antes da Segunda Guerra Mundial, seguindo os passos de um justiceiro mascarado, um policial decide também fazer justiça com suas próprias mãos e com o codinome de Coruja acaba fazendo parte de um grupo de heróis chamados Minutemen. Era uma época um tanto inocente, mas que já demonstrava trejeitos deslocados da época na figura do integrante Comediante, que além de ser violento e capaz de atos não tão heroicos, demonstrava que o tempo estava mudando. Essa Era de Ouro teve fim com a debandada do grupo, mas que foi reestruturada nos anos 60 com novos integrantes, com Coruja II, Espectral, Rorschach, Ozymandias e novamente o Comediante, ainda mais truculento e pronto para extravasar sua sede de violência em um mundo cada vez mais caótico. 

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Até aqui o mundo mostrado em Watchmen segue a linearidade de nosso próprio mundo, pois a presença desses heróis não causou impactos que mudassem a rumo da história do planeta. Em alguns momentos eles eram vistos como palhaços fantasiados, em outros eram considerados como ameaça aos criminosos. Mas tudo muda quando um cientista sofre um acidente nuclear que o transforma não em um super-homem, mas num semideus. De pele azul e capaz de ações inimagináveis, Dr. Manhattan mudou o curso da história apenas por existir. Amedrontando a URSS com sua presença e seus poderes, a Guerra Fria tomou outros rumos, a Guerra do Vietnã foi vencida pelos americanos (mesmo com o sabor da vitória ainda sendo amargo) e dando um status nunca tido pelos vigilantes, que passam a ser perseguidos pela população após a polícia largar mão de seus distintivos devido às ações desses mascarados. Após tantas revoltas e manifestações, a Lei Keene proibiu a ação desses vigilantes, ficando apenas Dr. Manhattan e Comediante na ativa, trabalhando para o Governo Americano. Apenas Rorschach manteve suas atividades às margens da lei. Mas tudo isso nos é contado no meio da história, não apenas no decorrer da trama, mas também nos anexos de cada edição, em forma de prosa, como por exemplo, várias partes de uma biografia lançada por Hollis Mason, o primeiro Coruja, com relatos de sua vida heroica e pessoal. São nesses relatos que sabemos que fim levaram os outros Minutemen.




A história em si começa com uma investigação de um assassinato. O que para os policiais é um caso misterioso envolvendo um possível latrocínio, para Rorschach trata-se de um complô para tirar de circulação os heróis por algum motivo que ele tenta desvendar. Suas suspeitas aumentam ainda mais quando descobre que a vitima nada mais era que o velho herói Comediante, e por aí tudo que já foi falado vai sendo revelado em conta-gotas. Rorschach é sempre tratado como um lunático, o que faz os demais heróis fora de ativa duvidar de suas suspeitas. Mas quando até mesmo Dr. Mahhrattan se torna, de forma original, em uma das vítimas, Coruja II e Espectral começam a suspeitar que o amalucado Rorschach possa ter alguma razão. Quem está matando esses ex-vigilantes? Quem ganha tirando eles do caminho? O que a história do passado pode ajudar os heróis a solucionar os mistérios da atualidade? 



Além do dilema dos heróis e o distúrbio coletivo que rondam a história, temos muitos outros atrativos para ler Watchmen. Muitos deles são marcas registradas dessa série, como o jornaleiro e seus palpites sociais, o garoto que lê seu HQ ao lado da banca sem pagar nada e parecendo totalmente alheio ao que acontece a sua volta. HQ essa, que por sinal, é também uma história à parte, intitulada Contos do Cargueiro Negro com a aventura de um náufrago atacado por piratas. No fim de cada edição / capítulo há uma surpresa, um incremento para a trama na forma de textos tirados de fontes fictícias que dão mais detalhes desse mundo fantástico.

Moore trabalhou muito bem o perfil dos personagens principais. Rorschach além de parecer um mendigo lunático, considera sua máscara como seu verdadeiro rosto, já o Coruja II parece ter se tornado um homem deprimido e sem coragem após sua aposentadoria obrigatória. Até Dr. Manhattan tem seus momentos de reflexão, sendo um ser com tanto poder que se sente deslocado do mundo. No fim ficamos com aquela pergunta se realmente necessitamos de heróis e se eles realmente existissem, poderiam estar preparados para agir como tal, aguentando o peso desse simbolismo. Outro ponto abordado é o caminho que super-humanos poderiam adotar para tornar o mundo melhor e as consequências de suas escolhas, que esbarram nas escolhas de cada cidadão do planeta. Quem vigia os vigilantes?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

CHAPLIN: 3 FILMES MUDOS IMPERDÍVEIS

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Com certeza Carlitos é um dos personagens mais importantes do cinema, e um dos mais queridos também. Charlie Chaplin com sua mímica e expressão facial, aliados a sua indumentária e trejeitos, lhe renderam um personagem carismático símbolo do cinema mudo. Nem todos os filmes de Chaplin eram mudos, mas ele demorou para aceitar incluir as vozes em seus filmes. Como ele dirigia, atuava, produzia e escrevia seus trabalhos, cabia a ele escolher a maneira como sua história era contada, mas não consigo imaginar seus filmes mudos com falas. Eles são perfeitos do jeito que foram feitos. Não que ele tenha tido medo de mudanças, mas acredito que via o cinema mudo como uma forma de arte que o cinema sonoro iria destruir, e estava certo, tanto que filmes como O Grande Ditador e Tempos Modernos, além de serem filmes corajosos, usaram e abusaram da sonoridade de Chaplin. Mas o personagem Carlitos brilha nos filmes mudos, um cavalheiro maltrapilho chamado de adorável vagabundo, que se tornou imortal para a história do cinema.


Corrida do Ouro
Lembro-me de um amigo ter feito curso técnico de filmagem e seu professor ter indicado esse filme de 1925 para estudo. O mendigo Carlitos tenta a sorte indo ao Alasca aproveitando a corrida do ouro em 1898 e, quem sabe, mudar de vida. Mas o terreno inacessível devido à tempestade na neve obriga Carlitos a buscar refugio em uma cabana, encontrando um criminoso foragido e um garimpeiro que obteve sucesso em sua busca por ouro. Mas a tempestade piora e eles decidem tirar na sorte quem deveria procurar comida. Após ser escolhido, o fugitivo Black Larson deixa os dois a própria sorte ao descobrir que o garimpeiro, Big Jin, havia descoberto ouro e parte para se apropriar de sua riqueza. É nessa hora que a história fica engraçada, com Carlitos e Big Jin fazendo de tudo para matar a fome, desde comer uma bota até terem sonhos e alucinações, onde Carlitos é visto como uma apetitosa galinha pelo amigo. Truques de câmera dão efeitos interessantes às ações da tempestade e à cabana que escorrega até a beira de um penhasco. Com o desenvolvimento na região, Carlitos consegue alguns empregos e se apaixona, e seu sonho de ser um garimpeiro de sucesso fica cada vez mais distante.


O Garoto
Quando alguma cena de um filme de Chaplin entra numa conversa, pode vir à mente a imagem de Carlitos mexendo nas engrenagens industriais no filme Tempos Modernos, ou de Carlitos e um cãozinho sentado na soleira de uma porta no filme Vida de cachorro. Mas com certeza a imagem de Carlitos e o garotinho, sentados lado a lado, com semblantes sérios, em frente a uma casa humilde, é uma cena que já faz parte do imaginário popular, reconhecível em varias releituras, tal qual a capa do disco Abbey Road dos Beatles ou o pôster do filme Scarface com Al Pacino. E o filme não fica atrás, sendo considerado um dos melhores de Charlie Chaplin, onde por obra do destino, Carlitos encontra um bebe abandonado e o cria como se fosse um filho. Mesmo não tendo onde cair morto, com muito esforço, ele educa o garoto, ao seu modo. Mas a mãe do menino está em sua busca. Além de ser um filme que emociona, é muito engraçado também. O garoto aprende com Carlitos como enfrentar as durezas da vida, que vão desde conseguir dinheiro (quebrando vidraças para o pai vidraceiro consertar) até encarar os garotos brigões do bairro. Como o próprio prólogo apresenta, "um filme feito para rir ou para chorar".



 Luzes da Cidade
Para mim o melhor filme do Charlie Chaplin e talvez um dos melhores filmes já feitos. Encabeça minha lista de melhores filmes produzidos. Após acordar de uma longa noite de sono em praça pública, onde um comício está ocorrendo, uma vendedora de flores cega lhe oferece uma rosa e Carlitos se apresenta como um rico cavalheiro para impressioná-la. Mas a mentira vai crescendo e o amor de Carlitos por ela também. Uma notícia de que uma cara cirurgia poderia fazê-la enxergar novamente a enche de esperanças, e como Carlitos é um “rico cavalheiro”, ela se enche de alegria. Não querendo revelar que ele é um mendigo sem nenhuma condição de lhe dar um tostão, ele tenta conseguir o dinheiro de diversas maneiras, desde a tentar uma carreira de boxeador, até conhecer um playboy que só o reconhece e o trata como amigo quando está bêbado. O mais interessante é ver seu esforço em conseguir fazer sua amada feliz, mesmo que isso signifique ela descobrir a verdade sobre suas condições. Chaplin era um perfeccionista e uma das cenas desse filme foi filmada mais de cem vezes para que o saísse do jeito que ele queria. Ele conseguiu, pois o filme é perfeito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

3 FILMES SOBRE GUERRA DO VIETNÃ

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Guerras sempre geraram bons filmes em Hollywood, sejam explorando as desavenças entre as nações, sejam mostrados os conflitos internos dos soldados ou do batalhão. Mas nenhuma guerra teve tantas maneiras de ser observada e com tantos dilemas pessoais quanto a Guerra do Vietnã. Os filmes vão mostrar, em sua maioria, o sofrimento causado nos soldados americanos, que travavam uma luta sem sentido. Algumas produções vão tentar mostrar uma inexistente razão humanitária dos americanos para o conflito, enquanto outras, memoráveis e clássicas, demonstrarão o quão surreal e idiota foi essa guerra, abordando todos os percalços gerados durante e após o ocorrido, e foram dezenas de filmes: Além da linha vermelha, Bom dia Vietnã, Rambo, O Franco Atirador, Pecados de Guerra, entre outros, cada uma abordando uma particularidade do conflito. Mas três filmes sempre são lembrados quando se fala em Guerra do Vietnã, dirigidos por lendas e com produções tão lendárias quanto: Apocalypse Now de Frances Ford Coppola, Platoon de Oliver Stone e Nascido para matar de Kubrick.

Apocalypse Now - 1979


Considerado uma obra prima cinematográfica é tida como a visão final da Guerra do Vietnã, com a fotografia belíssima contrastando com o ambiente. Se passa em 1969, onde o Capitão Willard (Martin Sheen) é convocado para se embrenhar na selva vietnamita numa missão secreta: matar um coronel americano que ficou descontrolado diante de tanta loucura à sua volta e montou um exército para se opor à guerrilheiros americanos, formando um pequeno reino nas perigosas matas do país. Juntamente com um grupo de soldados, Willard avança o rio Nung numa pequena embarcação e adentra o coração da floresta. Quanto mais vão avançando, mais a loucura da guerra vai se instalando na mente dos soldados.

E em meio a tanta barbaridade, personagens vão surgindo e demonstrando dramas surreais, como o do tenente coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) disposto a pegar ondas em pleno conflito, com sua bela prancha de surf. E mesmo o encontro entre Willard e o Coronel Kurtz (um dos muitos papéis memoráveis de Marlon Brando) ocorrer apenas no desfecho, esse encontro é a força motriz do filme inteiro. A produção teve muitos problemas, que quase levaram literalmente o diretor à loucura e rendeu um documentário anos mais tarde, Apocalypse Now é considerada por muitos críticos um dos melhores filmes da história do cinema. Além dos atores citados, Dennis Hopper, Laurence Fishburne (que mentiu a idade para participar do filme) e Harrison Ford (numa pequena participação) fazem parte do elenco. A história é baseada no livro No coração das trevas. Celebre, bonito, triste e enlouquecedor.

Platoon - 1986


Oliver Stone nos apresenta a guerra do Vietnã aos olhos de um soldado, no caso Chris Taylor (o agora tresloucado Charlie Sheen, filho de Martin Sheen - portogonista de Apocalypse Now) que percebe, ao chegar no Vietnã, que duas guerras estavam sendo travadas: uma guerra sangrenta contra os vietcongues, e outra pela sua alma. Enquanto se arrasta com seu batalhão em busca do inimigo, ele nota a diferença entre os dois sargentos, sendo que o frio Barnes (Tom Berenger) demonstra o quanto o ser humano pode ser transformado com a guerra, enquanto o simpático Elias (Willem Dafoe) mostra que suas escolhas é que moldarão o seu caminho, independente do lugar em que esteja. A guerra pessoal desses dois sargentos ultrapassam os limites da importância da guerra em que estavam, sendo que ambas, pessoal ou não, podem afetar o soldado Chris. Com cenas que entraram para a história do cinema, Platoon testemunha a camaradagem entre os soldados, seus medos, seus cansaços, suas vontades de voltar para casa, onde a imagem de um conflito fácil de ser resolvido, se torna cada vez mais um pesadelo sem fim.

Nascido para matar - Full metal jacket - 1987


Stanley Kubrick não é reverenciado à toa. Ao tratar do tema da Guerra do Vietnã ele escolhe dividir o filme em duas partes e nos mostra que a guerra começa logo no treinamento. Recém saídos dos colégios, os jovens são direcionados ao mundo militar caindo nas mãos de Hartmann, um sargento verborrágico extremamente rígido e amedrontador, que tem a tarefa de transformar o batalhão de jovens, recentemente saídos das escolas, em verdadeiras máquinas de matar. Humilhação, desgaste físico e emocional, brutalidade psicológica, exaltação dos fuzileiros, treinamento incansável, tudo isso levam os jovens aos seus limites para serem convocados à guerra travada no outro lado do mundo. Mas esse treinamento tem seus efeitos colaterais. 

Matthew Modinne interpreta um dos soldados, que após seu treinamento é direcionado ao Vietnã e, na segunda parte do filme, seu batalhão se vê num mundo que não estavam preparados, com pensamentos de estarem indo ás férias e encontrando um inferno, não adiantando qualquer tipo de treinamento prévio. Seu batalhão acaba tendo que enfrentar um atirador de elite em meio aos escombros de uma cidade destruída, com uma grande surpresa no fim, demonstrando o quão idiota era a presença maciça dos americanos naquelas terras. O desfecho memorável, com uma horda de soldados americanos caminhando e cantando uma música infantil nos remete à várias considerações. E a música Paint It Black dos Rolling Stones abrilhanta essa produção.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O COMPLEXO DE CHIMPANZÉ


Quadrinhos europeus são perigosos, porque viciam. Mas esse perigo faz bem para quem lê. Basta ler os três volumes do trabalho de Ricardo Marazano e Jean-Michael Ponzio, intitulado O complexo de chimpanzé que você terá sua dose aplicada. A narrativa cinematográfica de Marazano e a arte fotográfica de Ponzio só te fazem querer ler mais obras dessa dupla, unidos ou não. A maneira como o autor induz a história, com surpresas e mistérios instigantes, não te dão escapatória a não ser ler tudo de uma vez, sem conseguir parar. E em muitos momentos você fica contemplando o realismo no traço de Ponzio, ficando curioso de conhecer seu trabalho fora dessa esfera espacial.


No ano de 2035, após ter seu programa espacial cancelado por mais 30 anos pelo governo, Helen Freeman tem que esquecer seu o sonho de ser o primeiro ser humano a pisar em Marte e poder dedicar mais tempo à sua filha, sempre relegada à segundo plano devido ao seu trabalho, reconhecida como a mais experiente astronauta americana em atividade. Mas seus novos planos de passar mais tempo com a filha é novamente colocado de lado quando uma missão importantíssima, e estranha, é proposta à Helen, reativando novamente seu sonho estelar. Uma capsula espacial cai no Oceano Índico e é resgatada com tripulantes vivos, e suas identificações causam comoção na altas esferas governamentais dos EUA e na NASA. Tratam-se de Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os primeiros homens a pisar na lua em 1969, retornando de sua missão na Apolo 11, após 66 anos no espaço.

Depois de algumas investigações na cápsula e testes nos dois astronautas, foi constatado que ambos são quem realmente dizem ser e o equipamento é o mesmo que saiu da Terra 60 anos antes. Restam as perguntas: Por que não envelheceram? O que faziam esse tempo todo no espaço? E a maior questão de todas, quem eram os dois tripulantes que voltaram para a Terra naquela época e morreram décadas depois em nosso planeta. Helen fica incumbida de interrogar os dois astronautas e tentar decifrar esse enigma, que apenas terá respostas no espaço.


A história brinca com eventos reais e personagens históricos, como Yuri Gagarin e os já citados astronautas da Apolo 11. A trama gira em torno de Helen e a investigação de fatos secretos da a corrida espacial durante a Guerra Fria, como uma possível viagem dos russos ao planeta vermelho. Em muitos momentos lembrei do suspense do filme Alien, em outros conseguimos vislumbrar 2001:  uma Odisseia no espaço. Não há muita ação, mas o clima de perigo e mistério está presente nos três volumes. O tempo é intrigante e a mente humana também. Esses dois assuntos são tratados na trama de uma maneira inteligente, onde tanto a aventura principal e o drama paralelo da pequena Sarah que não tem a presença da mãe em sua vida, são importantes.

O "complexo de chimpanzé" é o efeito de perder sua capacidade de raciocinar ou compreender quando colocado numa situação em que não está acostumado ou que lhe gere pânico, não podendo interferir no resultado, e por conseguinte perder a razão e controle de suas ações. Leva esse nome devido aos experimentos com os símios que serviram de cobaias para missões espaciais. O tempo é com certeza a fonte de muita explicação e incertezas, e lendo essa história não teremos a verdade explicada, muito pelo contrário, surgirão muitas outras perguntas. Mas nada nos impede de nos divertir no meio dessa busca por explicações.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CARRIE


Carrie foi o primeiro livro que li de Stephen King, e só depois descobri que também foi seu primeiro livro publicado. Segundo algumas histórias ele não havia gostado do resultado e foi sua mulher que salvou seu trabalho da lixeira e tomou medidas para que ele prosseguisse. O autor revelou que foi escrito em um momento ruim de sua vida, mas parece que funcionou, pois, o mundo da literatura de terror deve muito às suas obras. A publicação do livro data de 1974, e possui versões no cinema, conexões com outros livros de King, além de ter referências espalhadas em diversos tipos de mídias, desde séries e desenhos animados. Após ler alguns livros famosos do autor, confesso que Carrie continua sendo o meu preferido. Das versões cinematográficas, com certeza a primeira, dirigida por Brian de Palma em 1976 continua sendo a mais lembrada.

A estrutura do livro lembra um pouco do que Bram Stoker fez em Drácula, e não duvido que King tenha se inspirando no antigo livro do vampiro, onde os fatos ocorridos são contados por cartas, notícias de jornais e diários. Na história, logo no início você se depara com uma tragédia sem precedentes ocorrida inexplicavelmente na pequena cidade de Chamberlain, e sem muita explicação do que ocorreu e como, somos levados por notícias e entrevista dadas por diversos personagens que dão sua perspectiva do que ocorreu anteriormente sobre os envolvidos. Até estudos são esmiuçados tendo como título “O caso Carrie”. Lembro que na época em que li não havia assistido aos antigos filmes e sabia bem pouco sobre o enredo, o que me ajudou e me fez o colocar na lista dos livros que você não consegue parar de ler.


Ela é uma garota sozinha, sem amigos e tida como estranha por todos. Sua aparência descuidada e cheia de espinhas ajuda ainda mais a ter problemas sociais. A grande causadora desse problema é sua mãe, Margareth, que possui um relacionamento doentio com a filha e com o mundo. Extremamente fanática religiosa, pune sua filha por qualquer coisa que julgue ser contra os preceitos de Deus, condenando-a a uma vida de privações e castigos, não muito difícil a garota fica trancada por dias a fio num pequeno armário, sem comer e fazendo necessidades onde está. Suas roupas, aparência e experiências de vida seguem os princípios maternos, que resultam num acontecimento no colégio que Carrie considera como o pior dia de sua vida. Ao tomar banho com as garotas no vestiário após aula de Educação Física, ela entra em pânico ao ter sua primeira menstruação e virar motivo de chacota entre as demais garotas que lhe atacam absorventes e disparam insultos, que desencadeia um castigo para a mimada Chris Hargensen, proibida de ir ao baile de formatura. Outra garota se compadece de Carrie e pede para o namorado levá-la ao baile. Lá eventos trágicos ocorreriam.


 Esse livro é um grande exemplo de como Stephen King tem maestria em construir personagens que irão ficar na sua mente por anos. Desde o protagonista estranho com forças peculiares, passando pelos arquétipos de valentões e jovens cruéis, até chegar em religiosos ortodoxos que fazem seus familiares sofrerem. Carrie apresenta poderes telecinéticos de tempos em tempos, que afloram após os últimos eventos de sua vida, talvez com a menstruação. Esse poder está enraizado na genética de sua família, manifestada a cada duas gerações. A foto dos poderes é motivo de estudos, mas logicamente sua mãe a considera como cria de Satã. Mas dificilmente você a encarará como um demônio e, não obstante torcerá para seus desafetos levarem a pior. Outra marca do autor presente nessa obra é a crueldade humana, presente nos atos das alunas e em sua mãe. Até nas entrelinhas você nota o quão Margareth prejudica a filha, como exemplo o pânico da menina ao ver o sangue de sua menstruação, evidenciando que nunca teve conversas a respeito com a mãe, que a castiga por estar se tornando mulher.

O livro vai trabalhando o suspense, te dirigindo até o final numa ansiedade agoniante, num roteiro dinâmico e você compreende o motivo dele ter sido escolhido para inspirar o filme que pouco mudou de sua história. Relembrando o filme de 1976, fica difícil não ler o livro agora sem imaginar a Sissy Spacek como Carrie, ou Piper Laurie como Margareth, até John Travolta como o valentão Billy Nolan, namorado de Chris Hargensen (Nancy Allen, futura parceira do Robocop na década seguinte). Foi um bom elenco com um bom diretor e se tornou uma referência para o personagem, King até pontuou que a cena final desse filme é uma das cenas que mais o assistiu num filme, mas se puder leia o livro. Você irá se surpreender.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

YOUR NAME


Mas que imagens bonitas tem esse filme. As cores e a iluminação são verdadeiras pinturas que nos saltam aos olhos nessa animação convencional que é muito bonita e rara de se ver hoje em dia. Tudo é bem feito nesse filme, que já recebeu elogios de críticos que o colocaram no pedestal de melhor animação de 2017, e de fato ele possui qualidades para tanto. É um achado que merece divulgação. Se você pesquisar na internet, particularmente em grupos do Facebook, perceberá que o filme possui um exército de admiradores. Produzido pela CoMix Wave Films, foi escrito e dirigido por Makoto Shinkai, pode ser um filme esquecido pelo Óscar ou por outras premiações de grande porte, mas que não fica atrás dos ganhadores, e desde seu lançamento no Japão em 2016, vem recebendo vários prêmios e honrarias que explicam o porquê desse filme já ter recebido mais de USD 350 milhões em bilheteria e ter uma produção live action prometida.

A história é simples e chega a ser bem adolescente, que é seu público alvo. Numa pequena cidade rural do Japão, chamada Itomore, vive a colegial Mitsuha, cansada de sua vida sem aventuras e da sua pacata vila, onde nada acontece e não há lugares divertidos para ir. De repente ela começa a trocar de corpo com um garoto chamado Taki, que vive na movimentada Tokio. Passam a se comunicar um com o outro primeiramente por anotações no corpo até avançar para mensagens deixadas em seus celulares, para que consigam passar o dia em que um está no corpo do outro, sem atrapalhar na vida de cada um. Mas lógico que isso não dá certo, e quanto mais geram confusão um para o outro, mais eles vão se sentindo mais próximos.


Contudo não é um filme direcionado ao público infantil, que pode achar um tanto monótono, a não ser que a criança já esteja acostumada à animes, mas serão adolescentes e adultos que irão gostar mais dessa história e mergulharão nesse romance inusitado. Para quem acredita que o universo conspira ao favor de encontros improváveis que resultem num grande amor ou apenas que almas gêmeas estão fadadas a ficarem juntas independente das impossibilidades que os cercam. Mas para quem acha que tudo em Your name se resume a um romance adolescente sentimental, saiba que não. Antes da primeira hora terminar você leva um soco no rosto que vem em forma de surpresa que te deixa encafifado. Pequenos socos lhe serão desferidos até o final, e muito pouco lhe pode ser revelado agora.

Mesmo para quem não acredita que temos uma mão onipresente no ajudando a cumprir nossos objetivos, não resta dúvidas de que quase tudo o que fazemos depende que vontades alheias às nossas escolhas, estejam em harmonia. Quando estamos com um grande problema podem acontecer duas coisas: sermos surpreendidos com um acontecimento que nos ajuda do nada e nos salva dessa complicação, ou uma sucessão de erros transformam o problema em algo pior. Pode até ser que a dificuldade persista e que você tenha que conviver com ela. Mas o que faz cada uma dessas consequências ocorrerem? Em Your Name, dois jovens sem nenhuma relação precisam se conhecer, e da maneira mais fantástica isso ocorre. Esse jeito que o universo os une é a maneira encontrada para se conectarem. Mas se você parar para pensar e tirar a parte fantástica da trama, verá que muitos relacionamentos começam a acontecer de forma parecida. Numa festa você conhece alguém que não era para estar lá, ou ajuda uma pessoa num dia de chuva e fica com ela por anos a fio.


Outros pontos que o filme aborda são as escolhas do ser humano. O que faz Taki conhecer Mitsuha pode não ter sido sua escolha, mas as suas atitudes são as determinantes para que seu futuro seja delineado. Não importa o que ocorra na sua vida, são suas escolhas que te causarão as maiores mudanças e te guiarão em seu caminho. E mesmo que você não saiba o que fazer no momento mais crítico, o universo lhe dará uma mãozinha, seja te acalmando ou colocando alguém na sua direção. Às vezes pode ocorrer o inverso, onde tudo tem que dar errado e você xinga a Lei de Morphy, mas depois de anos você não consegue imaginar sua vida diferente. Realmente um filme que merece ser visto.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O EXPERIMENTO DE APRISIONAMENTO DE STANFORD


Um filme que todo estudante de psicologia deve ver e que qualquer pessoa deveria assistir para analisar o comportamento do ser humano. Na verdade, é o terceiro filme baseado num experimento real ocorrido no Campus de Stanford durante as férias escolares de 1971, dirigidas pelo Dr. Philip Zimbardo, no filme interpretado por Bill Codrup, que se tornou um marco na história dos estudos comportamentais por vários motivos. Os resultados dessa pesquisa foram mais abrangentes do que estavam esperando. Segundo alguns sites especializados, esse filme de 2016 é o que melhor retrata os acontecimentos daquele verão.

O tal experimento tinha o objetivo de investigar como o ser humano se comportava em situações onde o indivíduo era definido pelo grupo em que estava inserido. Foram entrevistados dezenas de jovens e 24 foram recrutados, cada um receberia USD 15,00 para participar durante duas semanas desse programa, que consistia em transformar uma parte do porão da universidade num presidio, onde um grupo seria guardas e o outro seriam prisioneiros. Para Zimbardo, mesmo todos os jovens sendo iguais e psicologicamente estáveis, sendo inseridos nesses novos grupos com o tempo eles perderiam sua identidade individual e agiriam como o grupo. Os prisioneiros seriam chamados pelo número de sua vestimenta, usariam uniforme e teriam que obedecer aos guardas, que por sua vez teriam liberdade de fazer de tudo para manter a ordem, apenas agressão física era proibida. Zimbardo e sua equipe assistiam e acompanhavam todo o desenvolvimento à distância. Durante a entrevista, todos os jovens preferiram ser prisioneiros por diversos motivos, e as escolhas foram feitas por intermédio de cara ou coroa, mas aos guardas foi dito que foram selecionados devido a forma física, o que não era verdade.


Mas o que era para durar duas semanas fugiu totalmente do controle e durou apenas seis dias. A perda da individualização foi tão gritante, em ambos os lados, que em poucas horas transformaram os participantes. Os guardas se tornaram sádicos e abusavam do poder a todo o momento, humilhando moralmente os prisioneiros, que apresentavam distúrbios físicos e emocionais. Se o ser humano muda com um pouco de poder nas mãos e se transforma de acordo com o ambiente que o cerca, os pesquisadores tiveram a triste percepção de como isso pode ocorrer de forma rápida e descontrolada, sendo eles mesmos afetados pelo experimento. Alguns prisioneiros tentaram se rebelar, mas após não terem sucesso, os demais presos pareciam um rebanho, enquanto a crueldade de alguns guardas repercutia no comportamento de outros carcereiros, os tornando também cruéis. Essa perda é algo extremamente perturbador, e notar o quão rápido isso pode ocorrer na mente humana nos faz pensar como uma sociedade age quando isso ocorre numa vida inteira. Alguns prisioneiros começam a se chamar pelos números de suas camisas, enquanto os guardas começam a gostar de servir o sistema, tendo prazer em suas atitudes. Aquilo realmente era uma prisão e agiam como tal, se esquecendo no final que tudo era um experimento. Para eles se tornou real.


Analisando o filme e o experimento de aprisionamento, podemos notar o medo, frustração, ações de manadas e autoritárias, a aceitação de sua situação, a humilhação sendo aceita sem pestanejar, e o pior de tudo, não conseguir reconhecer quem somos e temer o que podemos nos tornar em situações adversas. Até onde o ser humano pode ir no sentido de poder e submissão e o quão profundo isso pode se enraizar na mente humana. Zimbardo escreveu um livro e após sua experiência e ele age deste então em programas que tendem a evitar o abuso de autoridade em presídios, mas relegar esse estudo apenas ao fator prisional é algo muito superficial. Vemos casos do tipo em todos os lugares, seja em apresas ou restaurantes, até em famílias ou no transito. Haveria uma maneira de evitar ou transformar um ser humano que está numa situação parecida? Que a psicologia nos ajude. No meu entender leigo, o mundo precisa de muita ajuda, não é mesmo?

O filme tem ótimas atuações, duas delas já fariam o filme valer a pena por si só. Do lado dos prisioneiros temos Ezra Miller, como Daniel Culp, ou 8612. Sua atuação como um prisioneiro rebelde e considerado um perigo pelos demais dão os primeiros sinais do que viria mais adiante no filme. Do outro lado temos Michael Angarano que logo recebe a alcunha de John Wayne entre os guardas, que usa e abusa de seu poder de forma cruel e sádica. Ambos os atores merecem parabéns, cada qual liderando seu grupo naturalmente, mesmo que seja por um tempo, e com certeza são nome garantidos em grandes produções no futuro, como no caso Ezra Miller como o Flash. Um filme para reflexão. Um experimento para ser lembrado.