sexta-feira, 11 de agosto de 2017

DEAD BODY ROAD


Dead Body Road é um filme de perseguição em quadrinhos.  Ao ler você se sente numa poltrona assistindo um road movie, com tiroteios, estradas perigosas e todo o tipo de personagem comum nesses tipos de produções. A história tem um ar de Quentin Tarantino (sem os diálogos característicos), e também dos irmãos Cohen, pois toda a trama está relacionada à um crime, no decorrer da trama vão aparecendo personagens perigosos com uma carga de assassinatos nas costas. O autor Justin Jordan (o cara é uma figura) está despontando no mercado dos quadrinhos como um dos novos bons escritores da nona arte, já com alguns quadrinhos de sucesso pelo caminho, e em Dead Road Body ele usa e abusa dos estilos cinematográficos citados e faz com que tenhamos uma experiência no mínimo divertida.

A impossibilidade de garantir a mesma emoção que temos nos cinemas quando assistimos a um filme de ação que engloba fuga, onde tudo parece estar em movimento o tempo todo, exigem dos escritores de livros uma destreza para transmitir ao leitor esse sentimento de perigo e ação, e nos quadrinhos a parceria autor e artista deve ser muito bem amarrada. Pode-se garantir que tanto Justin, quanto Matteo Scalera (Clique aqui e acompanhe o blog do artista) fizeram um ótimo trabalho, explorando as peculiaridades comuns nesse estilo de filme. A história e os desenhos te prendem do começo ao fim, e tudo acontece rapidamente, e você lê as seis edições numa tacada só. E as capas, com o título grande ao fundo de alguma cena, são bem chamativas.


A história é a mais simples possível. Em um assalto à banco, a policial Anna é fatalmente ferida, e um dos assaltantes, um perito em TI, foge com o dinheiro. Ele não concordava com a maneira que o grupo estava agindo no roubo, e planejava fugir com sua namorada Rachel e construir uma nova vida. Mas os demais criminosos trabalham para Kane, um chefe do crime conhecido por suas várias relações no submundo, que fará de tudo para saber onde o dinheiro está escondido. Em meio a essa perseguição pelas estradas quentes e poeirentas americanas, Gage, um ex-combatente, não descansará até se vingar pela morte de Anna, sua esposa. Kane contrata uma gangue de motoqueiros e coloca todos os seus capangas no encalço do casal, em especial Rachel, que passa a ser protegida por Gage, que ainda precisa se desvencilhar de problemas do seu próprio passado ao encontrar um velho inimigo que estava em seu encalço e aproveita toda essa situação.



Há muitas cenas de perseguição, explosão, embates sangrentos onde vemos corpos decepados e entranhas espalhadas no asfalto. Há cessões de tortura, palavreado chulo e mais e mais você se lembra, mesmo que vagamente, de filmes como “Assassinos por natureza” (Oliver Stone, 1994). Em algumas partes o leitor consegue até imaginar uma trilha sonora ao fundo, e a arte final e cores nos dão a impressão que está saindo poeira das páginas. Com certeza poderia durar mais, mas tudo que é bom dura pouco e fica aquela sensação de quero mais. Que venham mais quadrinhos da Image Comics com essa dupla.


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OUTCAST



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

HUCK


O nome do escritor de quadrinhos Mark Millar está bem falado ultimamente. Com mais um filme baseado em sua obra estreando nos cinemas, a continuação de Kingsman, o autor já se tornou reconhecido no meio cinematográfico com dois filmes de Kick-ass e RED, também suas criações. Suas histórias são de gosto fácil e ele sabe como prender o público e gerar uma trama criativa, que podem render ramificações e serem melhor trabalhadas quando se tem mais tempo e espaço para os mesmos. Millarworld é um selo criado por ele para separar suas criações, feitas em conjunto com vários desenhistas, dos seus trabalhos em editoras com Marvel e DC. De olho nessa criatividade a Netflix comprou a Millarworld, igual a Disney fez com a Marvel e a Warner fez muito antes com a DC. Entre os trabalhos desse selo está Huck, que tem grande potencial e capacidade de gerar continuações.

Millar é um grande fã de Superman, e por falta de oportunidade aproveitou uma ideia que iria utilizar para o Clark Kent em Smallville e criou esse personagem cativante. Sem as amarras da origem do herói kriptoniano e suas particularidades, o autor pôde dar asas a sua imaginação. Para ajudá-lo nessa empreitada chamou o brasileiro Rafael Albuquerque, dono de um traço que casa bem com a história e com certeza conseguiu transmitir para o papel todas as ideias do autor. As cores, luz e sombra nos dão as sensações necessárias para cada parte do enredo, ambientado numa pequena cidade do interior, onde um segredo é guardado pelos habitantes dessa cidadezinha.


Quando vemos o frentista Huck se locomovendo pelas estradas pulando nos carros em movimento, dando saltos gigantescos, levantando pedras imensas, percebemos que ele não é um homem comum, e todos na cidade sabem disso. Ele tem sentimentos altruístas ao extremo, com temperamento calmo e inocente, por muitas vezes infantil, ajuda à cada morador da cidade. Você nota que ajudar ao próximo é o único objetivo de sua vida, desde aparar a grama de todos os idosos, pegar o lixo de todos os moradores, pagar o almoço das pessoas que estão na fila atrás dele, sempre atender a um chamado, utilizar todo o dinheiro que tem com as outras pessoas, ajudar incansavelmente a quem quer que seja. Além das habilidades citadas, ele também tem um poder inato de encontrar ou rastrear qualquer coisa. E a fonte desses poderes ele não tem a mínima noção de como conseguiu, apenas se preocupa em colocar esses dons a serviço de quem estiver precisando, o tempo todo e de maneira obstinada. Mas seu poder pode ser utilizado em outros lugares...


Com medo do mundo de fora utilizá-lo de maneira errada, a população decidiu mantê-lo em segredo. Não podem ser considerados egoístas, mas a índole e a impossibilidade de Huck falar um não e ser tapeado seriam um prato cheio para oportunistas. Mas é lógico que o segredo não dura, você sabe disso desde o começo, algo um tanto óbvio para a história avançar, mas a maneira como ocorre e os acontecimentos que sucedem a essa descoberta, remetem à maior aventura na vida desse grandalhão. Com ação e alguns clichês inevitáveis, a obra é um convite ao público novo para conhecer um personagem típico dos quadrinhos da era de ouro, como o próprio Superman daquela época, mas com os pés fincados em nossa realidade, pois quando os dois mundos convergem há um choque muito grande. E todas as nossas dúvidas são tiradas em seis edições. Esse é um ponto negativo para Huck, pois em alguns momentos sentimos a falta de tempo em trabalhar melhor o enredo, algumas coisas ocorrem rápido demais, onde Millar merecia mais edições para contar sua história. Mas quem sabe uma série ou filme esteja à caminho para tapar esse buraco. Ao ler, eu lembrei muito da ótima animação O gigante de Ferro. As capas paralelas baseadas em pôsteres de filmes das décadas passadas ficaram muito legais. Vale à pena.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DE VOLTA PARA O FUTURO: O SEGREDO DO SUCESSO


De volta para o futuro é um dos filmes que já está inserido no imaginário popular e possui tantas referências de identificação automática que se tornou um caso à parte. Apenas franquias cinematográficas e algumas exceções conseguem ter peculiaridades de seu universo lembradas tantas vezes quanto a história de Doc Brown e McFly. Mas diferente dessas franquias, que refrescam nossas memórias com novos filmes todos os anos, a história desses dois viajantes do tempo está no patamar de filmes como O poderoso chefãoIndiana Jones e até ET, onde qualquer objeto, cena, diálogo, enredo ou música relacionados a eles são reconhecidas e utilizadas em outros filmes, desenhos animados, pôsteres, programas de TV, propagandas, seja em forma de homenagem, paródia e até em conversas de bar e piadas. O mais interessante é ver determinado objeto ou cena que remete ao filme e gera uma sensação de nostalgia, te fazendo lembrar de bons momentos assistindo ao filme, certamente várias vezes repetido, e em todas elas a admiração é a mesma.

Perceba que o filme tinha muitas razões para dar errado. Tem um enredo complicado, onde paradoxos temporais e linhas do tempo paralelas são apresentadas ao público juntamente com versões diferentes de personagens e vários detalhes importantes à trama. Parece uma bagunça, mas tudo é colocado de uma maneira simples e divertida, e o que era complicado passa a ser apenas um pano de fundo para a história principal que envolve um estranho triângulo amoroso (que foi a razão da Disney não aceitar fazer o filme na época, afinal de contas, dentro desse triângulo havia um tipo de incesto, que ia contra ao modelo familiar da empresa) e o pergolado do protagonista desaparecer. A produção ficou a cargo da Universal Pictures e Steven Spielberg e o diretor Robert Zemeckis conquistou seu maior êxito. O filme teve vários problemas dos bastidores, o ator principal teve que ser trocado e várias cenas precisaram ser refeitas. Mas há males que vêm para bem, pois não dá para imaginar De volta para o futuro sem Michael J. Fox.


A trama é maravilhosa, não tem um nerd que não sorri ao lembrar do enredo desse filme. É 1985, o jovem esquentado Marty McFly faz parte de uma banda em sua escola, tem uma namorada, vive uma vida simples, com pai covarde sendo explorado pelo valentão Biff Tannen no trabalho, e que de quebra também dá em cima de sua esposa. Sua rotina só é quebrada quando faz uns bicos de faz tudo para cientista Dr. Emmett Brown, que acaba de construir um invento revolucionário: uma máquina do tempo. Acoplada a um DeLorean (automóvel que é o sonho de 10 entre 10 nerds, mas só se tiver uma máquina do tempo embutida), o doutor decide refazer o primeiro teste com apenas Marty como testemunha, mas a dupla é interrompida por uma gangue que foi enganada pelo doutor no roubo do plutônio utilizado para fazer a máquina funcionar. Após fuzilarem o cientista, os criminosos vão atrás de Marty, que entra no DeLorean e consegue escapar, mas vai parar em 1955. Lá conhece sua mãe, que se apaixona por ele. Sua única chance de voltar ao futuro, sem plutônio, é recorrer à ajuda do Dr. Brown trinta anos mais jovem, e conseguir fazer de alguma forma seu pai, tímido e impopular, conquistar a sua mãe para que ele possa nascer, mas ele só tem olhos para o próprio filho.

Muitas coisas acontecem e você torce para McFly chegar em seus objetivos. O paradoxo temporal que eles tentam evitar é: se Marty voltou no tempo e por acidente impediu seus pais de se conhecerem, ele não irá nascer. Mas se ele não nascer, não haverá volta no tempo e não impediria o pais de se apaixonarem, mas aí ele nasceria e voltaria no tempo, ininterruptamente. Mas o que eu acho mais legal na trilogia que engloba essa aventura são os ecos temporais. São cenas parecidas que nos causa familiaridade, como por exemplo o vilão Biff bater seu carro num caminhão de esterco, Marty acordar num local escuro e estranho quando chega numa época diferente, ser chamado de franguinho, o Dr. Brown morrer, etc.


Das peculiaridades do filme temos a torre do relógio, que tem os ponteiros parados desde o dia em que um raio o atingiu (em 1955) e é muito importante para o primeiro filme, mas ele sempre aparece nas continuações. Nos três filmes há cenas com skates, mas só no segundo conhecemos o famoso skate voador. A teoria da relatividade é dissecada na história, e Einstein é um dos grandes ídolos do Dr. Brown, tanto que deu o nome do físico alemão ao seu cachorro. E por aí vai. O primeiro filme é com certeza o melhor, os demais são consequências do seu sucesso. No filme de número dois há uma verdadeira bagunça temporal, que complica ainda mais a trama, e ao mesmo tempo é fascinante. E no terceiro temos a conclusão no velho oeste. Na enternece há vários gráficos e fluxogramas que explicam como ficou a linha do tempo, mas para não alongar a postagem, vamos deixar para outra oportunidade.


Michael J. Fox sempre será conhecido como Marty McFly. Ele vem lutando contra o Mal de Parkinson e atuando em algumas séries de TV. Christopher Lloyd também terão doutor descabelado como o maior personagem de sua carreira, e olha que o Fester de Família Addams e o vilão Juiz Doom, que perseguia os desenhos animados em Uma cilada para Roger Rabbit, são dois grandes personagens de seu currículo. Thomas F. Wilson deu a Biff Tannen o status de um dos maiores vilões do cinema. Lea Thompson e Crispin Glover, os pais de McFly serão liberados por seus papéis no filme. Glover até gerou problemas com a produtora, quando não aceitou fazer as continuações e a processou por ver sua imagem sendo utilizadas no filme dois. E o personagem que se tornou símbolo dessa trilogia, o DeLorean modelo DMC-12 (único modelo fabricado por essa montadora, que foi inaugurada em 1975 e foi à falência em 1982), reconhecido apenas por causa do filme, e já é um item de coleção valiosíssimo.

O sucesso desse filme está na maneira como o roteiro foi feito, na música espetacular, na esperança de poder voltar no tempo para corrigir falhas do passado e perceber que tudo tem que seguir seu curso natural. O futuro mostrado no segundo filme, que já é nosso passado em 2015, pode parecer super tecnológico, mas como nerd defendo o filme: a viagem no tempo pode ter afetado os acontecimentos que seguiram o fluxo que conhecemos. Marty é um jovem comum, auto identificado pelo público, que mesmo não entendendo patavinas de Relatividade, assiste ao filme e se sente expert no assunto. Há romantismo para mulheres, lutas para os homens e aventura para ambos. Um filme que influenciou minha geração. Me lembro de quando assistia quando era mais jovem, e quando lembro não dá vontade de estar de volta para o futuro.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ONE PUNCH MAN


One-Punch Man é um absurdo. E muito engraçado por conta disso. E mesmo sendo tão estranho, com personagens descabidos, ele tem um tratamento tão certeiro em seu enredo que o diferencia de outros desenhos com temática parecida. Você pode encontrar em seu conteúdo uma alegoria aos super-heróis ocidentais, com seus uniformes e origens singulares, até aos próprios animes, cheios de seres hiperpoderosos capazes de destruir mundos com um único golpe. Na verdade One-Punch Man é exatamente isso, com o diferencial de não se levar a sério e parodiar sua própria história, que segue o mangá disponibilizado na internet desde 2009 no Japão e fez um enorme sucesso. O anime entrou no catálogo do Netflix esse ano (2017), mas foi produzido em 2012, e já tem continuação em andamento.

Para quem não conhecia o mangá e nem o anime antes de passar no Netflix, como eu, pode ter achado estranho tanto a história quanto a animação, mas após terminar o primeiro episódio você já se sente dentro desse mundo, onde seres monstruosos surgem todo momento e destroem tudo a sua volta. Uma brincadeira do autor, Yusuke Murata, é colocar na história várias peculiaridades de outros mangás e animes conhecidos, como Dragon Ball, mas desvirtua essa história de maneira cômica e oposta ao mostrado no original. Batalhas épicas e lutas aparentemente demoradas, são terminadas com apenas um soco. No anime de Goku, a preparação para uma luta já dura um episódio inteiro (as vezes mais) mas em One-Punch ele derrota três vilões logo no primeiro episódio, sendo que um deles é um gigante que deixa quarteirões da cidade em crateras com suas pegadas, e ainda derrota monstros subterrâneos, tudo de forma rápida e engraçada.


Nosso herói é Saitama, que decidiu treinar bastante para se tornar o maior herói da Terra, e consegue. Após um treino regrado durante três anos, que envolvia abdominais, agachamentos, séries de flexões, 10km de corrida diária, ele se torna superpoderoso conseguindo derrotar oponentes de poder extremo, com apenas um soco, daí o nome. Mas como efeito colateral de tanto treinar, seu cabelo caiu e se tornou cada vez mais entediado, chegando a depressão, por não existir inimigo à altura de seu poderio e perícia. Uma origem totalmente sem nexo, mas se for parar para pensar, aranhas radioativas e alienígena que não é reconhecido quando retira os óculos também não é lá muito diferente. As origens dos vilões são as mais toscas possíveis, como a do Homem Lagosta que comeu lagosta demais, ou do já citado gigante, irmão de um cientista louco que lhe deu um super soro. O ciclo de vida desses personagens é rápido, começam e terminam em questão de duas ou três cenas.

Mas é Saitama que domina a trama, sua personalidade descontente, sem vontade, esperançoso de que alguma luta valerá a pena. Sua fisionomia simples e uniforme ridículo são duas das razões por ele não ser levado à sério, nem quando salva as cidades japonesas da catástrofe total. Outro tema que o autor utiliza muito é a escolha recorrente dos japoneses criar monstros gigantes que destroem cidades. O Japão é um país que sofre com diversos terremotos e vulcões, é lotado de usinas nucleares, e mesmo assim ainda sobra espaço para monstros destruírem seus prédios e centros urbanos, como Godzilla ou os inimigos dos Changeman, mas como vimos no último tsunami ocorrido no país, se existe uma nação que pode sobreviver a esses monstros, são os japoneses. E as paródias não soam desrespeitosas, pelo contrário, nem são levadas à sério.


Coisas simples, como moscas e olhares, geram momentos engraçados da mesma medida que batalhas enormes e monstros burros e megalomaníacos. O dia comum de assistir TV e fazer compras está lado a lado com eventos cósmicos e seres dimensionais, e a importância que o protagonista dá para os dois tipos de eventos é a mesma. O tédio está sempre estampado em seu rosto. Os personagens secundários ajudam a história, mas você percebe que são uma escada para o careca. Em muitos momentos a animação aparenta estar saindo das páginas do mangá.

Uma boa escolha para quem quer rir, de maneira descompromissada, onde você não precisa se ater aos fatos do que está assistindo. Como uma sitcom, um bom anime para o fim de noite. Não maratone, aproveite o momento.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

LION


Lion é um filme tocante, que nos causa um sentimento difícil de descrever, por nos fazer sentir culpa ou impotência perante à uma situação, ao vermos problemas sociais no continente ao lado, que podem muito bem-estar no outro lado da nossa rua. Não vou entrar em detalhes políticos, pois a análise desse filme nos faz perceber que o problema está no indivíduo e sua contribuição para o mundo, em ações benéficas que podem mudar vidas para sempre e não por um momento. Ambos os tipos de ajuda são válidos, mas em determinada parte do filme conseguimos diferenciar os dois tipos de caridade, uma feita no comodismo, mais comum, onde voltamos instantaneamente ao nosso mundo após a entrega de alguns trocados. A outra é mais difícil, pois a sua vida muda por completo. É uma história real.

Na Índia em 1986, numa cidade bem pobre de interior, Saroo, de cinco anos, vive de maneira precária com a família. Sua mãe carrega pedras, não temos ideai de onde está seu pai, seu irmão um pouco mais velho os ajuda como pode, e o filme logo começa com os dois irmãos furtando carvão em trens em movimento. Num desses pequenos trabalhos, á noite vão a estação de trem em Khandwa, onde acabam se separando e o guri fica preso em um dos vagões, levado até Calcutá. Lá vive como um menino de rua, dormindo em pedaços de papelão e passando maus bocados. Sua sorte muda quando é adotado por um casal na Austrália e já grande decide procurar sua família biológica por intermédio do Google Earth, após 25 anos.


A história é simples, real, tensa e comovente. Em muitos momentos você pensará "nossa, que situação", em outras você esperará o pior de cada ser humano que passa pelo caminho do pequeno. O descaso da população e pessoas que tiram proveito, nos faz ficar apreensivos pelo seu futuro. Também não apontarei os problemas sociais e demográficos da Índia, uma vez que não estamos muito à frente deles, mas dificuldades como o dialeto e falta de estrutura ajudaram ao protagonista ficar ainda mais perdido. Não que sua vida tenha mudado muito após ficar perdido, mas sofrer sozinho é muito pior. Uma família, outro ponto bem trabalhado no filme, é o que toda criança precisa. Li em um site que o filme serve como propaganda do Google, e culpa o diretor Garth Davis por isso. Não concordo com essa inferência, o Google foi uma ferramenta importante para Saroo na vida real, e demonstra o quanto a tecnologia avançou a tal pinto de realizar sonhos em alguns cliques no computador. Está certo que demorou, mas ele pôde fazer isso sozinho. E por ser o primeiro longa-metragem de Davis, tendo sua obra indicações para vários prêmios, acho que ele foi muito bem.


A vida de Saroo mudou, isso graças a um casal do outro lado do mundo, e essa é a ajuda que citei no começo, a que muda vidas, de quem recebe ajuda e quem auxilia. Reencontrar suas raízes após vinte e cinco anos só se torna um objetivo naquele que descobriu o real sentido da família no decorrer de sua vida. Uma vez que você nutre sentimentos fortes pela família adotiva, nada mais lógico que se preocupar pela família biológica que o perdeu e que sente sua falta. E o elenco conseguiu demonstrar bem isso. A história em si já gera comoção, mas poderia ser bem pesado e se tornar até sensacionalista, mas o elenco foi bem escolhido e a história consegue entregar um filme que gera reflexão.

Do elenco três chamam a atenção. Dave Patel interpreta Saroo na idade adulta e já entra para o time de estrelas de Hollywood. Parece que você consegue sentir o que ele está passando, da mesma forma que Nicole Kidman nos faz ter o mesmo sentimento, como a mãe adotiva, que tenta construir uma família feliz e faz de tudo para que isso aconteça. Saber que existe pessoas como ela no mundo real nos dá esperança depois de assistir tanta tristeza. Mas o garoto Sunny Pawar como o jovem Saroo encanta, leva metade do filme nas costas, te deixa ansioso por novas cenas com sua participação, de longe a melhor escolha do filme. Digamos que só por ele o filme já valeria à pena. Após assistir ao filme você fica pensando, sua vida vai continuar a mesma, mas quem sabe você verá Saroo em alguma esquina ou viaduto de vez em quando.