sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MITOLOGIA NÓRDICA


É muito legal descobrir como os eventos da natureza eram explicados pelos povos de antigamente. Mitologia grega, egípcia, e principalmente a nórdica. No livro Mitologia Nórdica, o famoso escritos Neil Gaiman nos conta as mais famosas histórias que envolvem os deuses dos vikings, em especial o famoso trio Odin, ThorLoki. E o autor não só é perito no assunto como já demonstrou amar esses personagens, utilizando-os em sua obra prima em quadrinhos Sandman, onde no arco de histórias Estação das Brumas vemos ThorLoki como eles realmente são demonstrados nas antigas lendas e cantigas, muitas delas já esquecidas é bem diferente do que é mostrado nos quadrinhos e filmes da Marvel Não que os personagens criados por Kirby e Lee sejam ruins, pelo contrário, são geniais é uma forma interessante de mostrar esses deuses como personagens do universo heroico, mas é imprescindível conhecermos essa mitologia como ela realmente é, e Gaiman é muito feliz em sua escrita. 


Como ele bem relata no começo do livro, durante a leitura você se imagina num dia frio, numa cabana rústica em frente a lareira, com a neve caindo e saboreando uma bebida quente enquanto escuta histórias antigas sobre um mundo que pode existir, que envolvam os deuses asgardianos, que surgiram na Alemanha, se espalhando pela Escandinávia até os territórios dominados pelos navegadores vikings. Mas segundo Gaiman, muito pouco sobreviveu dessas antigas histórias, como se as únicas histórias que conhecêssemos de toda a mitologia grega fossem os feitos de Teseu e Hércules. Uma perda lastimável, e o pouco que sobreviveu foi mantido para que pudessem se compreender algumas figuras de linguagens utilizadas em poemas antigos. Mas corajosamente lá está Gaiman esmiuçando esses mitos e nos abrindo a mente com antigas histórias que não se perderão jamais. 

Tal qual a Bíblia ou o Silmarillion de Tolkien, o livro começa com sua gêneseiniciada com um mundo feito de névoa, onde ficava Nilfheim, o mundo escuro e frio e Muspell o mundo do fogo governado pelo gigante Surt com sua espada flamejante, também logo no início já se fica definido o fim desses mundos, o Ragnarök, tão aguardado por Surt. Nesse início descobrimos como o universo é formado, com a união do gelo e do fogo, com o nascimento de Ymir, o ancestral dos gigantes, até o nascimento de Odin e a criação dos diversos reinos que compõe Yggdrasill, a árvore da vida. Asgard, a terra dos deuses, Bifrost, a ponte arco-íris, Midgard, o mundo que habitamos, Jötunhein, o lar dos gigantes, entre outros. 


Parece que quase todas as histórias, pelo menos as que conhecemos, gira em torno de Odin, ThorLoki, de maneira direta ou indireta.  Sabemos como Odin ajudou a criar o mundo ao se tornar o deus soberano de Asgardcomo e por que ele perdeu o olho e o motivo de alguns dos vários nomes de que ele é conhecido, como exemplo o Deus da ForcaThor é muito diferente do personagem loiro e inteligente da Marvel, na realidade sendo mais um deus não muito inteligente, bruto e que resolve seus problemas com os punhos, além de ser barbudo e ruivo. Loki é o deus mais interessante, causador de problemas, num misto de amor e ódio com os próprios deuses, sendo conhecido como o deus das trapaças, já foi causador de grandes contendas e estragos, mas também de grandes feitos reparatórios que trouxeram muitos prêmios para os deuses, como Mjolnir, o martelo de ThorA história de seu nascimento, o motivo de ser considerado um irmão para Odin, não filho, e a história de seus três filhos monstruosos, a serpente gigantesca Jörmungund – capaz de dar a volta no mundo, sua filha Hela protetora do mundo dos mortos, e Fenrir – o poderoso lobo que deu medo no próprio Odin, serão peças fundamentais no Ragnarök, o apocalipse dos deuses. 


Quase todas as histórias têm os gigantes de Jötunheim como antagonistas, sendo ludibriados ou em batalhas. Os anões de dos mundos subterrâneos são retratados como seres capazes de criar objetos maravilhosos e joias fantásticas, como Skidbladnir, o grande navio que pode ser dobrado como pano é guardado no bolso. Os demais deuses também recebem tratamento especial, como Balder, os irmãos FreyFreyaa mulher de OdinFrigga, os deuses TyrHeimdall, entre outros. São histórias que não ficam devendo em nada para as famosas lendas gregas.  


terça-feira, 10 de outubro de 2017

BIG MOUTH


Estranhamente Big Mouth é um desenho para adultos sobre adolescentes, que os fazem se lembrar de maneira absurda de suas experiências nesse período de descoberta sexual. Mas os adolescentes assistirão e rirão da mesma forma, pois a trama e acontecimentos dessa animação é um espelho exagerado de suas próprias experiências da puberdade. Logicamente os absurdos contidos no programa servem apenas para exaltar esses problemas, mas não duvido que no mundo não tenha ocorrido, em algum momento, boa parte dos momentos hilariantes e até grotescos da vida desses garotos. Podemos lembrar da série de filmes American Pie que tinham ideias parecidas, mas com pessoas mais crescidas e convenhamos que essa animação disponibilizada pelo Netflix é muito mais engraçada. Em Big Mouth a puberdade e os fantasmas que rondam a mente desses pré-adolescentes são o foco.

A animação é divertida, tira sorriso fácil, tem personagens cativantes, possui um estilo interessante e ao final de cada episódio conseguimos relembrar uma lição que tivemos em nossas vidas (alguns episódios são realmente muito memoráveis). Trata-se da história de uma turma de garotos na faixa dos treze anos, que estão descobrindo a própria sexualidade, com todos os misticismos, inseguranças, medos e dúvidas que causam todo um drama e situações engraçadas. Os protagonistas são os dois amigos Nick e Andrew, inseparáveis e acostumados a compartilhar suas descobertas e questões sexuais. Alguns meses mais velho, Andrew já recebe a visita de Maurice, o Monstro Hormonal, nos momentos mais inapropriados de seu dia. Um monstro safado e boca suja, que vive na mente dos garotos despejando vulgaridades e excitação. Assistir a aula sobre o corpo humano demonstrando onde ficam as Trompas de Falópio causam o mesmo resultado de um relógio de parede em forma de gato com rabicho remexendo para lá e para cá. Culpa do monstro, que pode fazer os meninos chegar no clímax pensando até em tomates. E tudo é mostrado pela visão dos jovens que encaram essas mudanças como monstros e fantasmas.


Maurice é o ser que corresponde ao monstro das descobertas sexuais e incita os garotos a todo o momento, e não importa onde, a agirem de maneira impulsiva, aterrorizando o inseguro Andrew pelas futuras consequências de seus atos. Os fantasmas que rondam os jovens são manifestados pelas entidades sobrenaturais, em especial o fantasma do pianista Duke Ellington, uma lenda do Jazz. O músico falecido em 1974, segundo o desenho vivia na casa de Nick, assombrando o sótão até hoje. Mas está longe de ser assustador e serve mais como um conselheiro de Nick e também de Andrew, mesmo sendo conselhos inapropriados. Em momentos musicais ele chega a chamar outros artistas mortos para ajudá-lo nas músicas, como Freddie Mercury.  Além dos dois garotos citados temos Jay que possui um relacionamento amoroso com o travesseiro. Já os adultos possuem suas particularidades, como os pais de Nick com seus conselhos estranhos aparentemente liberais, ou o pai chato de Andrew. Vê-los nos faz entender muito das atitudes dos filhos.


As garotas não estão livres dos problemas da puberdade, pelo contrário, Jessi é a menina do grupo que está tendo sua primeira menstruação e de quebra acaba de conhecer a sua Monstro Hormonal num misto de amor, ódio, raiva, desespero. Se por um lado ela chora e fica deprimida, no outro está furiosa a ponto de esganar os amigos. No fim, todos tem as dificuldades inerentes à essa idade, como amadurecimento é problemas de se encaixar num grupo.  Um último personagem que vale a pena citar é o treinador Steve, com seus conselhos constrangedores dando aos alunos uma visão não muito bonita da idade adulta.

A abertura é muito legal, com uma versão da música Change do Black Sabah, interpretada por Charles Bradley que faleceu a pouco tempo atrás. Na abertura é destacado apenas o refrão, que condiz com a trama. Para quem gosta de American Dad e Family Guy, vai gostar de Big Mouth, pois são os mesmos criadores, mas com palavrões, cenas de nudez e sexo, mas tudo tem seu contesto. Cada episódio trata de um assunto diferente referindo-se à sexualidade e transformações em seus corpos, como masturbação, menstruação, dúvidas quanto ao gênero sexual, etc. Em diversos momentos alguns filmes são citados, como a lendária produção pornográfica do garanhão italiano Sylvester Stallone, tendo até uma participação do garanhão em um episódio. A cena de sexo do filme Clube de Compras Dallas também era lembrada com frequência, da mesma forma que também era lembrado de haver pessoas com HIV durante a mesma cena. Tem momentos que mostram a dificuldade de transição da infância para a adolescência, outras os personagens tentam se reafirmar, mas em cada um dos destinatários episódios dessa primeira temporada pode-se perceber que tudo é bem pensado e bem feito. Vale a pena assistir


Mais indicações de desenhos engraçados? Veja abaixo:

RICK E MORTY

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A MALDIÇÃO DO SUPERMAN


Existem produções cinematográficas possuem histórias curiosas em seus bastidores, algumas envolvendo maldições. Em O exorcista, várias mortes e acidentes rondaram o set de filmagem e o futuro dos participantes. Já em Apocalipse Now, dezenas de acontecimentos quase fizeram o filme acabar. Se foi má sorte, energia ruim ou apenas fatos exagerados não saberemos, mas um personagem de HQs que vem recebendo por um tempo a fama de amaldiçoado nos cinemas é o ilustre Superman. Percebe-se que tudo começou com o trágico e triste acidente com o ator Christopher Reeve, e vários conspiradores de plantão esmiuçaram a história cinematográfica do personagem e encontraram fatos curiosos.

Não vou entrar em detalhes de atores que   nunca foram lembrados após interpretar o herói kriptoniano, afinal de contas é um personagem muito marcante e impossível de ser desvinculado de sua imagem, como Christopher Reeve por exemplo. Como já temos uma postagem sobre o filme Superman de 1978 (aqui), vale à pena ressaltar que o ator fez muitos outros filmes, mas nunca com o mesmo êxito do homem de aço. Em 1995 tivemos a notícia de que após uma queda de seu cavalo ele fraturou duas vértebras no pescoço e a coluna vertebral, o deixando tetraplégico. Com o apoio da família e amigos, entre eles o ator Robin Williams, ele seguiu em frente, sendo também um herói na vida real, criando uma fundação que leva seu nome, especializada em paralisia, e foi um dos maiores motivadores da utilização das células tronco para mudar a vida das pessoas com deficiência. Faleceu em 2004, não sem antes fazer alguns trabalhos no cinema, TV e ainda escreveu dois livros.


Mas outro Superman também teve um fim trágico envolto em mistérios décadas antes. George Reeves (sobrenome parecido por pura coincidência - ou não - vai saber), interpretou o alterego do repórter Clark Kent na série para a TV de 1952 a 1957. Antes disso ele foi pugilista, músico, atuou no filme E o vento levou, tornou-se sargento na Força Aérea Americana durante a Segunda Guerra, mas foi como o carismático Superman que ele conseguiu fama mundial. Após fazer o papel do herói no filme Super Homem e os homens toupeiras de 1951, a série seguiu adiante com seu protagonismo até 1957.  Estigmatizado como qualquer ator que interpreta o herói de uniforme azul e capa vermelha, talvez tenha ficado deprimido quando os convites para novos trabalhos ficaram mais raros. O fato é que em 1959 a polícia foi chamada à sua casa em Bervely Hills após um disparo ser ouvido em seu quarto e ele ser encontrado já sem vida. As autoridades atestaram suicídio.


Mas novos fatos foram incorporando mistério à essa morte. George se casaria dali a poucos dias, tinha acabado de terminar um romance com sua amante que ainda o amava e que era casada com um executivo da MGM estúdios e várias pessoas que o conheciam atestaram que o ator nunca se mataria. Segundo alguns relatos, até hoje a casa de George é assombrada, onde algumas pessoas dizem ter visto o ator vestido de Superman no quarto em que dormia. Loucura ou não, esse foi o pano de fundo para o filme Hollywoodland de 2006, onde Ben Affleck interpreta George Reeves e um detetive tenta desvendar o mistério de sua morte.


E as maldições continuaram, não apenas com os protagonistas que vestiram o uniforme com S no peito, mas também os coadjuvantes, como a Lois Lane do filme de 1978, Margaret Kidder que sofreu um acidente de carro em 1990 ficando dois anos impossibilitada de trabalhar e em 1998 foi diagnosticada com problemas neuróticos e depressivos. Já o ator e comediante Richard Pryor, que foi o vilão no fraco Superman III de 1983, começou a sofrer de esclerose múltipla em 1986 e só foi piorando até sua morte em 2005. Mas convenhamos que muitos outros trabalhos que tenham Superman como foco nunca tiveram problemas (até um conspirólogo descobrir alguma coisa). De fato, Superman é um dos personagens que mais foi trazido à outras mídias fora dos quadrinhos e é de se esperar que hajam mais acontecimentos com pessoas que tenham trabalhado em seus projetos do que outros heróis, devido a quantidade. Agora é rezar para Henry Cavill não sofrer nenhum arranhão em sua carreira. Vida longa ao Superman.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O REINO DO AMANHÃ


A história dos Comics Books é dividida em eras, sendo as eras de ouro e prata as mais saudosas pelos fãs. Outra época famosa, mas por motivos diferentes, é a Era do Cromo, que recebeu esse nome devido às capas de algumas HQs publicada por volta do início dos anos noventa, onde os desenhos de heróis musculosos e feições exageradas de ação eram recheados com imagens metalizadas com o intuito de atrair o público. As editoras estavam tendo o melhor resultado de vendas de toda a suas existências, devido aos ótimos trabalhos apresentados no fim da década anterior e da arte de alguns desenhistas que despontavam nesse cenário, como Jin Lee e Rob Liefeld. As tramas eram ruins e caça níquel, com a morte de um herói de um lado e a união de outros heróis de outro. O estilo anti-herói assassino e mulheres com pernas enormes e cinturas finíssimas eram o novo estilo que foi copiado à exaustão. O resultado foi uma catástrofe total, com baixas vendas e a Marvel quase indo à falência. Mas isso chegou ao fim, e a HQ que marca esse retorno à qualidade é a famosa “O reino do amanhã”.

Demorou um pouco para a situação se normalizar, mas as editoras perceberam que a crise na indústria de HQs foi culpa de seus exageros e quando nem eles consideram o que fazem uma arte, o público não vai achar. E Alex Ross sabia disso. Juntamente com Mark Waid eles contaram uma história que traria os heróis da era de prata para se digladiarem com os heróis da Era de Cromo. As maiores editoras de quadrinhos do planeta tiveram que se render. O que faz delas grandes empresas é o sentimento dos leitores com os personagens que há tantos anos fazem parte de suas vidas, com pequenas modificações, mas com o contexto inabalável. E para essa empreitada nada mais certo chamar a trindade da DC para cumprir com o objetivo. Superman, Batman e Mulher Maravilha lideram os heróis do passado num mundo cheio e carente de heróis ao mesmo tempo.


Anos antes Alex Ross apresentou sua arte ao mundo com a minissérie Marvels, veja aqui, com seu estilo realista que fez os desenhos feitos por outros desenhistas parecerem rabiscos de criança, e o pior, era apenas um realce no que já existia nas décadas anteriores, copiando capa por capa pelo artista. Se ele já demonstrou à que veio e a mensagem que queria passar na Marvel, na DC ele apenas desferiu o golpe final. A história se passa no futuro onde os heróis do passado já não atuam mais. Superman está num exílio auto imposto após a morte de sua amada Lois Laine pelas mãos do Coringa e Bruce Wayne ainda age em Gotham, mas sem capuz, após ser incapacitado numa luta. Mas o mundo estava cheio de heróis, na maioria jovens inconsequentes, que mais causam danos do que ajudam. Com uniformes brilhantes e poderes espalhafatosos, eles fazem a vez dos personagens criados na década de noventa. Um deles é o poderoso Magog, o ser mais poderoso desse mundo, que lembra bem Cable, personagem criado por Rob Liefeld para as histórias dos X-MEN.

Como deuses, os antigos heróis retornam para impedir a nova Liga da Injustiça, ou Legião do Mal, que estão com novos planos de dominação mundial e aproveitam o embate entre os heróis para colocar o novo plano em prática. Vemos antigos heróis dando as caras e analisamos o fim que cada um levou nesse futuro funesto. Enquanto em Marvels compartilhamos a memória e imagens tiradas por um fotografo que acompanhou os fatos mais importantes da Marvel, em O Reino do amanhã acompanhamos um pastor idoso chamado pela entidade Espectro para servir de testemunha aos acontecimentos narrados. O pastor nada mais é que o leitor fã de quadrinhos, que não importa o quão mal as histórias sejam lançadas, ele sempre voltará aos seus personagens favoritos. As capas, com vários personagens lado a lado olhando para você se tornaram icônicas, como se eles nos observassem, assistindo nossas vidas.


O que me chama atenção na história é a importância que o Shazam (ou Capitão Marvel) tem na história. Numa trama onde podemos visualizar o crepúsculo dos deuses, Shazam não tem um lado definido, uma vez que é controlado pelos vilões e ao mesmo tempo é uma esperança para o clímax, onde Superman concorda que nunca foi um homem nem tão pouco um Deus, mas Shazam era os dois. Curiosamente o Capitão Marvel foi um dos personagens comprados pela DC anos após uma batalha judicial de plágio do Superman. Lá está ele de volta, o jovem Billy Batson que foi agraciado com poderes que o transformando num dos seres mais poderosos da Terra ao gritar Shazam. Alex Ross fez história, Mark Waid escreveu os diálogos e nós ganhamos quatro edições que englobam uma obra de arte. Mas histórias recentes, com mais mortes e colocando herói contra herói demonstram que um novo reino do amanhã deve retornar. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

NOSSOS DEUSES SÃO SUPER-HERÓIS


O livro escrito por Christopher KnowlesNossos deuses são super-heróis” possui uma ótima análise do culto aos super-humanos dos quadrinhos que tomaram o lugar dos antigos deuses de antigamente. Knowles tem bastante experiência no assunto, trabalhou nessa indústria por décadas e já colaborou para vários trabalhos que receberam Eisner, o grande prêmio dos quadrinhos. Mas nesse livro ele trata de um assunto muito interessante, dissecando alguns personagens e ligando a história dos quadrinhos com o desenvolvimento social de maneira linear para que possamos acompanhar sua ideia. Não é segredo que os autores e criadores desses personagens tão queridos tenham bebido na fonte de lendas antigas para dar vida às suas criações, sejam lendas nórdicas ou gregas, sociedades secretas, mitos e religiões e até esoterismo. E o autor nos agracia com vários exemplos, de maneira bem escrita e nem um pouco enfadonha, com ilustrações bem estilizadas de Joseph Michael Linsner.

Os seres humanos sempre precisaram de deuses para que pudessem se agarrar no momento de necessidade, e tudo por causa do medo. Na primeira parte do livro ele trabalha bem essa necessidade, onde relata como as histórias em quadrinhos sempre tentava ajudar os leitores a enfrentar perigos reais em suas vidas. A Grande Depressão Americana e a Segunda Guerra Mundial são os dois grandes eventos que deram vida ao super-herói moderno e podemos perceber isso ao lembrarmos os vilões que os heróis enfrentavam na época: gangsteres, tiranos fascistas, políticos corruptos, gerando assim uma válvula de escape para os leitores fugirem da realidade. Superman, Capitão America, Batman, Mulher Maravilha foram criados nessa época. Podemos perceber que a Era de Ouro dos quadrinhos teve fim quando esses dois infames eventos foram superados pelos americanos, e as vendas de gibis de heróis diminuíram, mas quando o medo de um embate nuclear entre as grandes potências se tornou forte durante a Guerra Fria, lá estava a Era de Prata despontando, com dezenas de heróis surgindo na década se 60, como a maioria dos Vingadores, Homem Aranha, X-Men e etc.com inimigos tecnológicos, heróis espaciais, alguns representante a vitória dos americanos da corrida armamentista (Homem de Ferro) ou criados pelos efeitos nucleares (Hulk), até retornando velhos deuses (Thor) para que a realidade seja novamente esquecida.


O tempo passa, os americanos percebem (ou boa parte deles) que são os verdadeiros vilões da Guerra do Vietnã e diversos eventos (veja aqui) fazem com que  a indústria de quadrinhos caia. Mas novamente estariam de volta quando o medo voltasse. Ocorreu na metade da década de 80, com grande ajuda de Pablo Escobar e as drogas rolando soltas entre os jovens. Com o presidente Reagan mais preocupado com seu rancho e comunistas, que surge Batman: O cavaleiro das trevas e Watchman. Pronto, era uma das melhores épocas dos quadrinhos. A década de 90 sofreu uma das piores crises na venda dos quadrinhos por culpa das próprias editoras, na chamada Era do cromo, e os americanos estavam mais preocupados com Bill Clinton assediando estagiárias do que problemas sociais. Mas o medo sempre volta, e dessa vez veio de forma bem pesada, necessitando que as HQs dessem um passo bem longo para ajudar os heróis a se tornarem deuses. o filme do Homem Aranha em 2002 desencadeou uma onda de filmes de super heróis que perdura até hoje, mas foi o 11 de Setembro que deu aos americanos o medo necessário para que esses filmes sejam lançados até agora, uma vez que os atentados ocorrem até a data de hoje e em vários localidades do planeta. E essa indústria se tornou cinematográfica com lucros nunca antes obtidos pelas editoras.


Knowles vai percorrendo a história dos quadrinhos e nos detalhando tudo o que foi exposto acima, desde o antigo Egito, passando por Grécia, Roma e nos relembra as grandes Seitas Secretas que se tornaram tão conhecidas. Tudo ajudou a dar vida à imaginação dos criadores dos super-heróis. Alguns homens que são conhecidos como super-humanos também são comentados, como o satânico Aleister Crowley e o mágico escapista Houdini. Na parte três ele nos dá uma aula de algo que para mim é superinteressante e fonte inesgotável de pesquisas: Pulp Fiction, que não existiria se escritores como Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Julio Verne, H. G. Wells e Bram Stoker, e também não sobreviveria se outros grandes autores não tivessem abraçado a ideia e alimentado essas histórias de ficção barata e tão cultuadas que seriam os pais das Historias em Quadrinhos, como Lovecraft e E. Howard, onde lendárias revistas como Weird Tales fariam história.

Para salvar a humanidade era necessário utilizar muitas fontes, e uma árvore possuíam galhos alimentados por diversas raízes, que iam dos grandes magos das histórias medievais, messias bíblicos (Superman sem dúvida), heróis de guerra, feminismo, mitologia, lendas judáicas, e até sentimentos como a força de vontade (Lanterna Verde) e preconceito (X-Men) e vingança (Batman e mais um exército de personagens). Ao final ele presta uma homenagem a grandes visionários dos quadrinhos, como Alan Moore, Neil Gaiman, Mignola, Alex Ross, e logicamente o grande rei Jack Kirby. Um livro para quem gosta da nona arte.